Encontrar o dia

Publicado: 03/05/2012 em Uncategorized

O despertador toca. O olho que não está afogado no travesseiro perscruta de onde vem o alarme. A mão toma o aparelho. O polegar aperta um botão. Silêncio outra vez. De súbito, dá-se conta de que os pés estão gelados. Mais nas unhas. Coloca-se o braço para fora da coberta. Vai-se dando mais do corpo ao frio. Pouco a pouco. O corpo vive.

O quarto está imerso em um limbo luminoso. De fora, atravessa a vidraça da janela uma luz fraca e esbranquiçada. Luz que perdeu a força depois de mil refrações. Como um leite ralo diluído em água. E as coisas são feitas em silhuetas. Algumas se escondem na silhueta de outras. Um tanto se vê. Outro tanto não. Leia o resto deste post »

Peça que falta

Publicado: 22/04/2012 em Uncategorized

Estou ansioso. É exatamente isso. Agora sei. É ansiedade. Achei que era outra coisa. Angústia, talvez. Pavor, talvez. Cheguei a pensar em tédio. Porque é difícil dar nome ao que se sente. Porque é difícil separar o que se sente. Às vezes me sinto como uma panela. Como se panelas sentissem. As sensações fossem cenouras. Batatas. Mandiocas. Todas misturadas num caldo. A panela confusa. O que sinto? Sinto cenoura? Ou é batata? Mandioca? Às vezes, sentir é uma sopa. Leia o resto deste post »

Convite para o solar

Publicado: 19/04/2012 em Uncategorized

Em mais uma parceria com Isadora, criei essa semana cinco video-teasers para o próximo show da banda no Solar de Botafogo: todos convidados!

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Clarice era mulher

Publicado: 19/04/2012 em Uncategorized

Eu entendo que seja comum ouvir dos homens não gostarem do que escreveu Clarice Lispector. É comum que não se goste daquilo que não se compreende. Mas, quanto mais entendo isso dos homens, menos homem me entendo. Às vezes, inquere uma voz de dentro das entranhas repletas de testosterona instintual: que espécie de homem sou eu que lê Clarice Lispector, que acorda e que se deita ela? E a voz pondera: seja homem, abandone Lispector e vá encontrar uma Clarice para com ela se deitar. Nada se resolve, há em mim um jogo de vozes que não se calam unidas. Nem como mediador sirvo, sou eu apenas contexto. Leia o resto deste post »

Que mãos, que sentimento?

Publicado: 18/04/2012 em Uncategorized

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo

— Drummond

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Dois versos. Com que mãos segurá-los? Com que sentimento enfrentá-los? Tardio me sinto, e minhas palavras: atrasadas algumas décadas.

Por isso, nunca foi tão familiar o nome de arremedo. Afinal, é ou não é uma grande ironia procurar a ponta de um interminável novelo de palavras próprias e descobrir, quando finalmente se a tem entre os dedos, que ela vai dar no bordado de dois versos de um outro homem? Leia o resto deste post »