Louca alma

Publicado: 16/05/2012 em Uncategorized

Teste

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Sentaram-na à cadeira. Logo perceberam, e a deitaram na cama. A ela deram calmante. Depois não tiveram alternativa e a sedaram. Houve um tempo, e com a justificativa de protegê-la dela mesma a amarraram a uma camisa de força. Padecida, mas pacificada. Catatônica, mas controlada. Definhada, mas dominada. A louca alma humana.

Quando a internaram, seu histórico de loucuras já havia atravessado eras. Quantos foram os meninos que estranharam o mundo porque neles havia uma alma inquieta? Quantos jovens sonharam um outro mundo porque neles havia uma alma em revolta? Quantos foram os homens que tiveram a ousadia de fazer no mundo porque neles havia uma alma angustiada? Quantos os velhos que deixaram o mundo sorrindo porque neles a alma havia enlouquecido? Pois por isso a sentaram, e a deitaram, e a sedaram, e a amarraram. E as crianças, então, veem tevê. Os jovens, pois, passam no vestibular. Os adultos, agora, caminham para o escritório. Os velhos, tarde, aposentam-se. E todos morrem sãos.

Eu é que sei. Porque me sentaram à mesma cadeira. E a cadeira era uma poltrona. E a poltrona era macia. E a maciez relaxava. E o relaxamento acomodava tudo.

Eu é que sei. Porque me deitaram na mesma cama. E a cama era acolchoada. E o acolchoamento adormecia. E o dormir cerrava os olhos cegos.

Eu é que sei. Porque me deram o mesmo calmante. E o calmante formigava os dedos. E dos dedos dormentes também as mãos. E as mãos nada mais alcançavam.

Eu é que sei. Porque me deram o mesmo sedativo. E o sedativo cessava a consciência. E a consciência já nada conhecia. E o que não conhecia lhe era o torpor da ignorância.

Eu é que sei. Porque me amarraram à mesma camisa de força. E a camisa apertava. E o apertar inquietava minha alma de criança. E o apertar revoltava minha alma juvenil. E o apertar angustiava minha alma adulta. E o apertar matava minha alma velha e louca.

Sei disso tudo sem poder negar uma só palavra que aqui escrevo. E a alma não sentava. Não deitava. Não se acalmava, nem se sedava. E a alma não se deixava amarrar. E por isso não havia o acomodamento, nem a cegueira, nem o inalcançável, nem a ignorância. Só havia a loucura. A louca alma humana. A louca alma minha.

Hoje, então, decidi não sentar. Muito menos deitar. Foi hoje, decidi deixar o calmante escondido. E quando vieram me injetar o sedativo, tomei das mãos do mundo a seringa e a fiz cuspir seu veneno no ar. E o mundo me veio imobilizar com sua camisa de força. Mas hoje eu disse não. Com uma verdade que não é minha, com uma certeza que não é minha, com uma serenidade que não é minha: hoje não.

Por isso hoje tenho a alma louca. Porque é a loucura que diz a verdade. Porque é a loucura que tem a certeza. Porque é a loucura que é serena. A loucura da alma. A alma humana. A alma minha. A alma que diz hoje não.

Por isso hoje tenho a alma louca. É ela quem vai me enlouquecer. E as loucuras virão. E novamente tentarão me sentar, deitar, acalmar, sedar, prender. E a alma novamente dirá hoje não. E tudo isso acontecerá amanhã. E depois de amanhã. E isso acontecerá todos os dias. E todos os dias haverá a alma de dizer não. Para continuar louca. Para ter sido digna de toda a inquietação que sentiu. De toda a revolta que viveu. De toda angústia que passou. Para ser digna de sorrir e finalmente morrer sã.

A alma, eterna.

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comentários
  1. Ita Andrade disse:

    Ta no seu sangue essa loucura e quando é assim, à quem permite ela conduz, à quem resiste, ela arrasta. Melhor ser conduzido.
    Eu, Eu profundo e os outros Eus, estamos loucos de alegria.

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