Pedro não pode morrer

Publicado: 10/05/2012 em Uncategorized

Ter direito sobre a vida. O homem tem direito sobre sua vida. Mas, quando é que se tem direito sobre a vida?

O homem nasce. E não é dado a ele o direito de escolher vir ou não à vida.
Sem direito de escolher a mãe.
Sem direito de escolher o pai.
Sem direito de escolher a educação.
Sem direito de escolher a cultura.

O homem cresce e o mundo lhe impõe a vida. E as pessoas. E as coisas.
O homem cresce com a ilusão de que sobre sua vida tem o direito de escolha.

Porém, um dia o homem descobre não ter direito algum. Em nada arbitra.
Um dia o homem olha a sua vida e a inquere: que é viver?
E o faz solitária e cautelosamente. Para que ninguém o ouça, para que nem mesmo alguma coisa em si o ouça.

Nesse dia o homem encara de frente a morte. Olha para trás e vê a mãe e vê o pai.
E descobre, o homem, que nem o direito de morrer tem ele.

.

Eu me chamo Pedro porque assim minha mãe e meu pai quiseram. Eu era a criança que quiseram, que tanto quiseram, que desesperadamente quiseram, mas não era eu a criança que eu quis. Não me foi perguntado acaso queria eu ser criança. Não me foi perguntado acaso queria eu ser.

Ocorreu que comecei a me tornar humano. Como humano, fazia perguntas. Com perguntas, obtia respostas. Com respostas, surgiam-me novas perguntas. Que nem sempre tinham respostas. E as perguntas sem respostas, estas exatamente, iam me tonando humano. Um humano-eu que não era o humano-Pedro almejado por mamãe e por papai. Um humano que queria o direito de ser humano mesmo sem as respostas que nem a mãe e nem o pai tinham sobre quem de fato eu era. Eles só conheciam Pedro. E Pedro eu já não era. Eu era humano, estranho, estranho, estranho.

Pedro é o meu nome. Mas, podia ser André. Ou outro nome qualquer, porque o nome não importa. Importa que eu queria ter o direito de ser humano tal como me disseram que um dia foi escrito: os seres humanos nascem livres. Que liberdade, se nem o nome a mim foi facultado escolher? Se nem minha mãe nem meu pai concederam a mim o direito de ser eu quem eu quisesse ser. Se nenhum nem outro me conheceram como eu quisera ser conhecido. Minha mãe, amada. Meu pai, amado. Que amam um ser que deles nasceu sem liberdade alguma, mas que desde que se tornou humano tenta renascer livre, ainda que sem amor de mãe e de pai. Ainda que sem amor do mundo. Ainda que estranho ao mundo. Ainda que para nascer num outro mundo.

Hoje, chamam-me de Pedro. Os amigos me chamam Pedro. Os documentos me registram Pedro. O emprego me contrata Pedro. As autoridades do país me apontam Pedro. O mundo, pois, sabe a mim Pedro. Mas, eu não sou Pedro. Eu sou aquele que um dia se perguntou, solitária e cautelosamente, que é viver?, e não houve resposta. E ninguém há que entenda isso. Se há, tal pessoa também não se chama Pedro.

Pois hoje, eu encaro a morte. Olho para trás e lá estão minha mãe e meu pai.
A vida atrás, e o mundo, e as pessoas e as coisas.

Como Pedro, não tenho o direito de morrer.

Mas, eu olho atento ao ínfimo ponto onde a vida toca a morte.
Que é viver?
Finalmente vem a resposta.
E assim morro eu.

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comentários
  1. michelbehr disse:

    Esses textos são demais… abrem nossa mente… Talvez valha a pena destrinchar um pouco o sentido da palavra “liberdade”. Que é ser livre? Poder escolher? Uma criança recém-nascida escolhe algo? Conseguiria escolher? Escolhe até que ponto? Escolheria até que ponto se não impuséssemos (como impomos) um nome, um pai, uma mãe…? “Hummm… tá, não gostei dessa mãe não, acho que conseguiria coisa melhor… Ô doutor, fiquei sabendo por aí que tem umas mães mais macias, mais carinhosas, dá pra trocar?” Ou então: “O que?! Pedro?! O cacete!! Meu amigo, eu tenho cara de PALHAÇO por acaso?! Pedro é a mãe!! Meu nome é Frederico!! Fre-de-ri-co!! Entendeu?! Porra, eu nem nasci esses caras já tão me sacaneando, que que isso…” Esses dois exemplos infelizes tentam mostrar o seguinte: nossas escolhas são sempre baseadas em experiências anteriores. Então a gente precisa de “experiências involuntárias” para poder gerar algum conhecimento com o qual possamos comparar mais adiante e decidir com base nele. O problema é que nesse momento de decisão supostamente “legítima”, estamos nos baseando em experiência que não escolhemos, nesse sentido tomando decisões que não são verdadeiramente nossas, mas baseadas num conhecimento adquirido de experiências que não escolhemos viver. Ou seja: nessa linha, a verdade é que nunca escolhemos, somos apenas reações químicas inusitadas, que de uma forma estranha consegue preservar uma certa identidade molecular ao longo de séculos, misturando com outras moléculas, claro…

    Enfim… acho que o próximo passo nessa reflexão é tentar entender o que é escolha, o que é liberdade, o que é não-liberdade. Talvez a frustração que sentimos quando percebermos não sermos livres vem da nossa expectativa ingênua e incurável de que deveríamos ser, de que teríamos esse “direito”, o “direito” de ser livre. Porque é uma idéia doce, fascinante. E aí o sabor da verdade de torna amargo. Mas não se soubermos reconhecer o outro doce sabor, o doce sabor de conhecer o que é verdadeiro – ou de pelo menos se perceper mais próximo disso do que antes.

    Chega, escrevi demais… :-) Valeu André, mais um texto preferido – são vários.

    Abraço!

    • André Kano disse:

      Michel, seus comentários sempre acrescentam carinho e visão aos textos. Agradeço demais.

      Eu fiquei muito pensativo sobre o que você fala sobre essa sensação de que temos o direito de sermos livres. E de que essa sensação pode ser uma mera ilusão. Não sei se concordo, mas acho que estou inclinado, a cada dia, a pensar dessa forma. Acho que o texto fala sobre isso. A ausência de liberdade, a ausência de poder escolher todas as coisas, inclusive de ter direito sobre a vida e sobre a morte.

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