Encontrar o dia

Publicado: 03/05/2012 em Uncategorized

O despertador toca. O olho que não está afogado no travesseiro perscruta de onde vem o alarme. A mão toma o aparelho. O polegar aperta um botão. Silêncio outra vez. De súbito, dá-se conta de que os pés estão gelados. Mais nas unhas. Coloca-se o braço para fora da coberta. Vai-se dando mais do corpo ao frio. Pouco a pouco. O corpo vive.

O quarto está imerso em um limbo luminoso. De fora, atravessa a vidraça da janela uma luz fraca e esbranquiçada. Luz que perdeu a força depois de mil refrações. Como um leite ralo diluído em água. E as coisas são feitas em silhuetas. Algumas se escondem na silhueta de outras. Um tanto se vê. Outro tanto não.

Há um magnetismo no lençol que se vence com grande esforço. Até que os pés tocam o chão. Vai um arrepio pelo calcanhar. Os joelhos se aprumam um ao lado do outro. Os braços se esticam e os punhos da camiseta de mangas compridas se encolhem. Sente-se frio também nos pulsos. A consciência de estar acordado, e o corpo se põe em direção ao banheiro.

A torneira faz barulho no girar de sua válvula. A água corre em direção ao ralo. Quando toca a pele das mãos é que se acorda de verdade. Mas, logo depois, quando vai a água ao rosto, um pouco se encara a morte. Lento se escova os dentes, e a leve pressão da escova denuncia uma dor na nuca. Dor de mal jeito. A toalha à boca. Aquela sensação macia.

Nisso, o cão sai de sua toca, estica a coluna com as patas estendidas, depois se chacoalha todo, estende o focinho na direção de seu dono, e espera. A mão toma sua guia e a fixa na coleira. De chinelos se vai à rua. Com o cão.

O primeiro cheiro é de um mofo suave pelas escadas do edifício. Depois, à medida que se alcança a saída, vem o cheiro de calçamento molhado da chuva da noite. O chão não tem água empoçada, mas é chão lavado. Nos cantos e por frestas de pedras portuguesas, vê-se o limo que cresceu por intempéries da estação. O cão urina.

Não há vento, mas a brisa é gélida. As árvores de troncos escuros e encharcados. E suas folhas pelo chão. Últimas flores retêm nas pétalas gotas d’água inteiras. Pelos cantos, formigas refazem caminhos. A vida se reorganizando depois da noite, um pássaro canta bom-dias. No céu de onde veio, o azul. Límpido! E nuvens poucas, mas expressivas, de formas brancas e espessas.

De volta ao lar, água no bule. O café coado, depois à xícara, faz erguer-se um fio de névoa que desaparece no ar. O primeiro contato com algo quente desde que se deixou o aconchego da cama. O cão pede comida. E ganha. E assim um novo silêncio, de comer e de beber.

Água também se esquenta para o banho. Cai sobre a testa e escorre pelo corpo. E parece que parte do corpo escorre junto. Fica-se assim num tempo apenas com a sensação do movimento acalentador da água. O sabonete que desliza. O shampoo que espuma. As digitais se enrugam. O tempo passa.

No armário, as camisas em fila de cabides. Uma, a escolhida. Coloca-se os braços dentro dela, e os botões dentro de suas casas. As pernas atravessam a calça e logo, assim coisa por vez, vai se protegendo com um tanto de estilo próprio para o dia lá fora.

Lá fora o sol subiu um tanto mais. Escalada tímida no céu. Onde ele toca o chão sem anteparos tem-se a grata sensação de uma calefação natural e agradável. É bom parar de andar quando se alcança um lugar assim. Um sol distraído que toca no rosto como um beijo cândido. Para depois a caminhada retomada por sombras frias de árvores e prédios.

E assim tudo vai encontrar o dia. No outono.

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