Peça que falta

Publicado: 22/04/2012 em Uncategorized

Estou ansioso. É exatamente isso. Agora sei. É ansiedade. Achei que era outra coisa. Angústia, talvez. Pavor, talvez. Cheguei a pensar em tédio. Porque é difícil dar nome ao que se sente. Porque é difícil separar o que se sente. Às vezes me sinto como uma panela. Como se panelas sentissem. As sensações fossem cenouras. Batatas. Mandiocas. Todas misturadas num caldo. A panela confusa. O que sinto? Sinto cenoura? Ou é batata? Mandioca? Às vezes, sentir é uma sopa.

É preciso separar as coisas. Separei a angústia quando ela nem mesmo tinha nome. Angústia é uma coisa que não deixa a garganta engolir a saliva. Uma coisa que dói na boca do estômago. A garganta seca. A dor na boca do estômago. Além disso, um monte de sensações cortantes. Elas ardem quando cortam. Mas nenhuma apresenta motivo. Por fim, o ciclo. O vício cíclico. Vício de auto-mutilação. Eu não sinto angústia. A garganta não está seca. Não me dói o estômago. E assim por diante.

E o pavor? Por que não é pavor o que eu sinto? Eu já o senti. Não acredito que alguém que tenha sentido pavor tenha dúvida a seu respeito. Uma das sensações mais puras. Mais agudas. O corpo inteiro em riste. Uma eletricidade que o percorre. Deve ser a adrenalina. Tudo no mundo some. O próprio mundo. Resta só o porquê do pavor. E até isso vai embora. Fica-se apenas com o pavor. Vai amortecendo depois. Deixa um leve formigamento. Sente-se melhor nas pontas dos dedos. Às vezes, trêmulos. Os pelos arrepiados. A vista parece ter manchas escuras. As coisas voltam. O mundo, aos poucos, volta.

Não é pavor o que sinto. Nada disso está aqui. Não houve nenhum desses eventos. Nem sinto tédio. O dia chora, há umidade espalhada pela casa, a luz do céu é cinza. Mas não é tédio. Tédio tem uma certa prostração que dá nos ombros e no pescoço. Tem um peso. Tem uma claustrofobia solitária, pequena e cheia de silêncio. No tédio, mover coisas é ato improvável. Quanto mais os lábios e a língua. No tédio as palavras são ocas. É das sensações a que se alimenta de vácuo. O corpo largado. Como se morto.

O que eu sinto é ansiedade. Não se trata de desejar um tempo mais breve. As coisas que demoram a chegar. Que demoram a acontecer. Trata-se de não saber o que fazer com as coisas que já chegaram. Com o que já aconteceu. Há um quebra-cabeças sendo montado. É a peça faltando, e não se sabe que peça é. Nada se basta por si só. Nada se completa por si só. Alguma coisa já aconteceu, mas não se sabe o que é. Alguma coisa vai acontecer, mas o que é? Isso é ansiedade.

Eu me sento. Abro o livro na página 96. Levo vinte minutos para ler um parágrafo. Algo não me deixa avançar ao próximo. Não compreendo o que leio. Parece dislexia. O fim do livro, na página 320, nunca vai chegar. Aí me levanto. Vou até a geladeira e encho um copo com suco de limão. Levo-o até a janela como se quisesse fazê-lo. E vejo a chuva cair. Como se fosse o que mais desejasse. Aquilo me cansa logo depois. Bebo o suco de um só gole. E agora? O que fazer agora? O que fazer quando o suco do copo acaba? Voltar à geladeira? Enchê-lo outra vez? Voltar à janela? Vou ao banheiro. Tiro a roupa. Debaixo do chuveiro, penso na peça do quebra-cabeças que me falta. Tento buscar no sabonete a resolução de descobri-la. Quando o banho termina eu já esqueci que o quebra-cabeças está incompleto.

Ansiedade. Tudo isso é ansiedade. Eu agora sei. Eu me sento com o texto no colo. Eu agora sei que mal consigo escrever essas linhas. As palavras parecem estar investidas de uma completa falta de sentido. Eu busco o ar como se estivesse saindo de um afogamento. O pulso acelera. Eu paro.

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comentários
  1. michelbehr disse:

    me identifico muito com essa sensação. me senti assim dias desses. pra mim pareceu falta de desejo. falta de sentir. como quando se está anestesiado, e mesmo sem sentir (ou até mesmo pelo fato de não se estar sentido) o corpo fica alerta. sabe que algo está errado, e aí vem uma ansiedade natural de todos os momentos em que não estamos no controle. não sabemos, não entendemos, não queremos… mas queremos querer, queremos desejo, para andar, para sentir… é água destilada na boca que assusta… :-)

    solução: no meu caso, ficar quieto, em silêncio… normalmente funciona. passa….

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