Clarice era mulher

Publicado: 19/04/2012 em Uncategorized

Eu entendo que seja comum ouvir dos homens não gostarem do que escreveu Clarice Lispector. É comum que não se goste daquilo que não se compreende. Mas, quanto mais entendo isso dos homens, menos homem me entendo. Às vezes, inquere uma voz de dentro das entranhas repletas de testosterona instintual: que espécie de homem sou eu que lê Clarice Lispector, que acorda e que se deita ela? E a voz pondera: seja homem, abandone Lispector e vá encontrar uma Clarice para com ela se deitar. Nada se resolve, há em mim um jogo de vozes que não se calam unidas. Nem como mediador sirvo, sou eu apenas contexto.

Seria mais fácil para mim, e portanto mais tranquilo, que eu tivesse cascudas as solas dos pés, num caminho trilhado descalço, e nas mãos, em vez de linhas desenhadas ao bico de pena, sulcos arados de um pedaço de chão. As vozes teriam menos tempo à polifonia, e eu dormiria sem pensar, acordando com galos. Os homens de hoje, os homens modernos, que vivem nos escritórios, também não têm os pés e as mãos que descrevo. Mas, em algum lugar ainda lhes crescem as cascas, e noutro lhes aprofundam os sulcos. O fenótipo de um homem se altera em um par de anos, mas sua alma custa lentas gerações para algo mudar. Gerações inteiras de novos meninos que não lerão Clarice Lispector. Eis uma explicação do porquê o mundo vai de mal a pior.

Esses dias, entretanto, ao dizer de minha tara nada masculina pela autora, ouvi de uma mulher a voz de um homem: eu não a leio. Foi um pasmo duro de suportar. Perguntei o motivo, e ela me disse que Clarice era difícil de ler, e que talvez tivesse ela um gosto literário masculino. Sentir-me pouco homem num mundo em que os homens são do jeito que são implica em ponderar demais sobre a serventia da própria alma. Mas, a que drama chegará a minha se tiver de inquirir também o fato de que talvez eu seja mais feminino do que uma mulher?

Não vivi, nem nunca entendi o movimento feminista como algo que necessariamente defendia mulheres. Sempre achei que suas militantes, no afã da luta por todos os direitos, transgrediam o direito feminino à fragilidade sem serem diminuídas pela grandeza de mostrar aquilo que são. Adepto de meu livre pensar, este sempre me disse que as mulheres se tornaram menos mulheres na justa medida em que desejaram ocupar o lugar de homens em vez de lutarem pelo direito de serem admitidas como iguais a eles. Larga é a diferença entre uma coisa e outra, mas há que se ter sensibilidade para ver esse hiato. Talvez, pela luta feminina tão masculina, há menos mulheres que conseguem percebê-lo nos dias de hoje.

Eu, de fato, quero apenas pares. Na tentativa de ser menos só, não me importa se com homens ou com mulheres, pares. Humanos que sejam mais homens ou mulheres, com quem trocar sutilezas silenciosas e falar em piscadelas de olhos. Pessoas que tivessem a certeza de que ainda no berço infante, como Clarice Lispector, a primeira vontade foi a de pertencer. Que ouvissem cheios de candura eu dizer que exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ao a alguém, é que me tornei bastante arisca, como Clarice Lispector, e que tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Porém, o mundo está cada vez mais vazio de homens e mulheres assim. E eu, como Clarice Lispector, experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

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comentários
  1. “Só Deus perdoaria o que eu era porque só Ele sabia do que me fizera e para o quê. Eu me deixava, pois, ser matéria d´Ele. Ser matéria de Deus era minha única bondade”.
    “ter nascido era cheio de erros a corrigir”
    “A solidão de que sempre precisei é ao mesmo tempo inteiramente insuportável”
    Clarice é certeira, profunda, lógica, tão certeira, tão profunda, tão lógica que dá vontade de chorar, que dá vontade de parar tudo e só ler, só repetir as palavras dela para si mesmo e pensar sobre elas.
    Acho que é uma questão de ser humano, não feminino. Questão de alma, com a qual as mulheres costumam estar mais conectadas que os homens, talvez por isso.

    • André Kano disse:

      Concordo Luli: “acho que é uma questão do ser humano… com a qual as mulheres costumam estar mais conectadas…” Obrigado por compartilhar!

      • De nada. Sugiro duas leituras dela que acabei de fazer: A Legião Estrangeira e Cartas perto do Coração, este último um conjunto de correspondências entre ela e Fernando Sabino falando sobretudo sobre escrever…

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