Que mãos, que sentimento?

Publicado: 18/04/2012 em Uncategorized

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo

— Drummond

.

Dois versos. Com que mãos segurá-los? Com que sentimento enfrentá-los? Tardio me sinto, e minhas palavras: atrasadas algumas décadas.

Por isso, nunca foi tão familiar o nome de arremedo. Afinal, é ou não é uma grande ironia procurar a ponta de um interminável novelo de palavras próprias e descobrir, quando finalmente se a tem entre os dedos, que ela vai dar no bordado de dois versos de um outro homem?

Desde então, tudo o que escrevo é anacrônico. Tudo o que escrevi também o era. Deixei atrás de mim um rastro longo de palavras perdidas a esmo, escriba perdulário que sou. Se me resta alguma hombridade, é a de confessar ciência de que os homens às vezes se perdem diante dos poemas.

E que restou?

.

Drummond me chega tarde. É que a simplicidade não é fácil. As coisas sem adjetivos são só as coisas — eu me explico — e é difícil encará-las como são. É difícil olhar as próprias mãos e parar o olho no fato de que elas são de fato mãos, apenas. Os dedos e seus contornos, linhas das palmas e eventuais cicatrizes. Parar o olho nas unhas nuas, as mãos peladas e cruas, o olho estático diante de tal erotismo. E depois saber que o mundo tem sentimento, e tê-lo como o é, também nu, também cru.

Logo se quer saber se as mãos acariciaram o rosto de quem se ama, ou agarraram o ladrão, ou lavraram o solo árido, ou se permaneceram imóveis ao tempo, ganhando marcas a mais com o passar dos dias. É difícil deixar que as mãos apenas sejam, sem tempo e sem motivo. Ninguém quer saber, por sinal, do que há no mundo além da propaganda e das grandes estruturas de concreto. Que o mundo derrete, poucos sabem. Nem interessa saber. Por isso eu me explico, Drummond me chega tarde.

Porém, logo que me chega, é como se estivesse sentado no canto de meu quarto desde sempre. E aí sinto que nasci em Itabira do Mato Dentro, que fui estudar em Belo Horizonte, que me casei com Dolores, que me tornei funcionário público, que me radiquei no Rio de Janeiro — mas, isso tudo sem que nenhuma palavra a mais conseguisse somar a esses dois versos.

Olho para mim no fim de minha vida. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

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comentários
  1. Kely Gouveia disse:

    O grande artista reveste de palavras, de sons ou de movimentos aquilo que há muito já morava em nós. A comoção vem justamente ao ‘re-conhecermos’ esses sentimentos, ora travestidos em versos (como no caso) que, por nos igualarem na condição de angústia (tão intrinsecamente humana), também por isso, nos salva.

  2. Feizi Milani disse:

    Drummond é sensacional… e você é maravilhoso!!!

  3. Luisa disse:

    Quanta história podem contar “apenas” duas mãos. Quanto sentimento pode haver nelas…

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