Doença terminal

Publicado: 13/04/2012 em Uncategorized

Depressão. Eu estava prostrado no sofá e o pescoço sumira com a cabeça se enfiando entre os ombros curvados. Ela me disse sem hesitar e sem solenidade que eu estava doente. Listou os motivos sintomáticos que compunham o diagnóstico, e depois se calou esperando minha reação. Eu esbocei um certo alívio que ela percebeu em um quarto de sorriso que se via nos cantos de minha boca.

— Por que o alívio? — perguntou.
— Você me diz que estou doente em vez de dizer que sou doente.

Ela também sorriu em um quarto. Pensei na tristeza da cena — duas pessoas somadas mal davam meio sorriso. Depois disso, ela se despediu ao me entregar um papel com o nome e o telefone de um psiquiatra. Eu disse adeus (eu sim, solene), sem dizer que era a última vez que a veria. A terapeuta.

No consultório, falei o que havia ensaiado em casa na esperança de que aquilo fosse suficiente para me livrar do homem desconhecido que então me encarava como se há muito soubesse quem sou. Deve ser horrível ter de parecer íntimo de alguém em tal situação, quando a única intimidade que se tem vem da resposta à pergunta: onde dói?

— Tudo dói — respondi, imitando Caetano, ouvindo a voz de Gal ecoar na minha cabeça: tu-du-dóóói, tu-du-dóóói.
— Depressão — ele me disse.
— Sim, doutor, eu sei. E o que mais (antes que eu me despeça do senhor, também para sempre)?
— Esses dois, uma vez ao dia, à noite.

Quando fui tomar as drogas pela primeira vez, percebi a proeza que o médico alcançara. Enquanto eu precisei de muitos advérbios e adjetivos para resumir minha angústia, ele o conseguiu com duas pílulas, uma branca e outra amarela. Dois grãozinhos coloridos que pesam quase nada, pesam bem menos que diariamente. Quem sabe me tirem o peso de tudo.

Pois pensei bem de lá para cá e, embora continue a me drogar conforme prescrição, tive de discordar do diagnóstico médico e terapêutico. Minha doença não é depressão. Na verdade, eu sou doente de mim. Pois a que conclusão chegar senão a essa, quando não se tem uma ferida na pele para mostrar, não se tem os cabelos caídos ou o resultado positivo para um exame de sangue? Você está doente de si mesmo, teria sido melhor ouvir isso em vez de uma explicação sobre neurotransmissores difíceis de imaginar. E eu andaria nas ruas sabendo que aqueles passos têm prazo. Vou morrer de mim, é irreversível.

Então eu seria eu mesmo e faria todas aquelas coisas que não fazemos porque não nos somos. Eu xingaria meu chefe e pediria demissão de meu trabalho intelectualmente aviltante, externaria opiniões sinceras sobre as pessoas com quem me relaciono. Eu me negaria a pagar o preço das coisas, mas pagaria qualquer sacrifício para alcançar meus sonhos. Eu diria, cheio de resolução: se vou morrer daquilo que eu sou, melhor que eu o seja. Poucos me compreenderiam, mas a estes eu teria respeito, dizendo ter a quem respeitar.

Pois a doença de mim é a única que de fato não tem cura. É a única que mata o corpo, mas perdura além da vida, correndo nas veias da alma. É doença da qual não se pode apartar, posto que vive nesse espaço entre as letras e e u da palavra eu. Por isso, compreendo a omissão da terapeuta e do médico. Não porque não sabiam (quero acreditar) do mal que me mata, mas porque nem mesmo eles, com todo treinamento, estavam preparados para dar ao paciente notícia com tais implicações. E ainda que dessem, que tratamento indicariam senão paliativos e contemporizadores? Por isso me deram duas pílulas. São concretas, prescindem explicação. Cabem na palma da mão, prescindem alma. E eu as tomo de um só gole, sem pensar.

Assim, sigo já desenganado. Os meus mais próximos e queridos dizem que é apenas uma fase e que ela vai passar. Não se dão conta de que a vida já passa sozinha, sem nada que a cure. A vida se mata sozinha, sem que nada precise ser feito. A vida se vai só.

Anúncios
comentários
  1. Jucenberg disse:

    Gostaria de evitar clichês do tipo “adorei o texto” ou “meus parabéns, excelente texto”. Mas vou dizer isso mesmo, porque é o que se diz quando se olha no espelho. “Escrever num mundo onde todos escrevem” vou lembrar disso também, e usar como bússola, ou como amarra para uma coisinha que vive dentro de mim e me devora. Seu nome, “vaidade”. Achei o blog visualmente muito interessante (gostaria de ter essa consciência visual).

    • André Kano disse:

      Obrigado pelos comentários elogiosos. E que bom que o texto e o blog levou algo a você. De fato, o mundo não precisa de mais pessoas escrevendo. Não há nada que justifique escrever. Só posso pensar que isso é de fato parte da doença. Espero ter você por aqui outras vezes.

o que você pensa sobre?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s