Farewell

Publicado: 09/04/2012 em Uncategorized

Aos livros sempre liguei a palavra mistério. Um livro é uma das coisas mais misteriosas da vida. Afirmo com propriedade, pois não sou um leitor voraz. Os leitores vorazes podem até dizer que cada novo livro é um mistério a ser descoberto no folhear de páginas, mas já se acostumaram eles ao método e o fazem com desenvoltura — ter o vértice da folha entre o polegar e o indicador, passando o papel de um lado ao outro do livro como num gesto de pura revelação — o que faz de todo livro um certo lugar comum. A leitores médios como eu, até esse simples manuseio é um mistério.

Quando começo a ler, tenho um ar de solenidade sacra. Faço silêncio em pensamentos para ouvir a voz do livro, e me puno quando algum pensar o desrespeita e vem me falar, por exemplo, de uma ansiedade da vida qualquer. Paro de ler. Olho fulminante o que pensei até que em mim se faça novamente o silêncio necessário. Recomeço. O único barulho que me permito é o farfalhar de cílios enquanto os olhos caminham pela homilia.

Assim prossigo porque as coisas que me são misteriosas são para mim também divinas. Todo mistério é prova da existência do pensamento abstrato, que é no fim das contas um sinal dos céus etéreos. Deparar-se com o que não se sabe coloca a volição do pensar a serviço de ir buscar nesse plano invisível tudo aquilo que está à espera de ser revelado. E assim o homem inventou um jeito de voar e de falar com outros homens à tamanha distância e a tal velocidade. E assim eu leio um livro.

Pois é importante que se diga que pelo respeito com que trato esses tomos de mistérios, nunca ousei tocá-los com canetas de destacar texto. Nem neles escrevi com esferográficas. Nem mesmo a lápis registrei uma só palavra em suas páginas. Da forma como vieram impressos, assim permaneceram. Não por poucas vezes me vi censurando um amigo que inadvertidamente tomava nas mãos uma caneta de cor amarelo-placa-de-trânsito e rasurava o texto. Que brutalidade!

Tal não foi para mim fonte de angústia o que vivenciei no sábado passado. Numa livraria, dessas em que é possível ler um livro inteiro sem comprá-lo, graças à ausência de plásticos assépticos conjugada à presença de poltronas por demais confortáveis, estava eu em frente à prateleira dos poetas brasileiros. Em destaque, uma fileira inteira dedicada aos tantos livros de Carlos Drummond de Andrade (como se Drummond precisasse de tal favor para ser desejado, pensei). Lendo as bordas onde vão gravados os títulos das obras, passei por elas com a ponta dos dedos num segundo, e fiquei assoberbado com que velocidade cruzei com as palavras que brotaram de um homem ao longo de uma vida inteira. Ofegante, tirei Farewell do alinhamento. Segurei-o com as duas mãos. Na capa, o rosto velho do poeta, bem como foi eternizado na estátua que lhe presta homenagem na orla de Copacabana. Respirei fundo, prendi a respiração, abri o livro. Que me dizes, Drummond?, inquiri no micro instante anterior ao me deparar com o poema que viria aos olhos e. O poema. O poema tinha versos sublinhados.

Para mim foi como se alguém, nu em pelo e em silêncio, quebrasse o silêncio da cerimônia, afinal alguém nu diante de outros pode bem prescindir de palavras para dizer todas elas. Olhei para os lados como se quisesse encontrar uma alma que ao menos me confortasse o peito angustiado, mas as pessoas na livraria estavam ocupadas de suas leituras e passeios. Que solidão. Quando foi que me senti tão só nessa vida? Paralisado, na verdade Petrificado, nem levar o livro a um dos atendentes e tirar dele, com a autoridade de um consumidor exigente, uma  plausível explicação, consegui. Ficamos eu, o livro nas mãos, e aquela rasura no poema de Drummond, como na hora do suspense que dura um instante e que só passa depois da eternidade.

Os sublinhados foram feitos de caneta vermelha, com força a ponto de se transformarem em sulcos na veia do papel. Nenhuma cor e nenhuma forma teria sido mais exemplar do que essa: rasgando o texto e deixando um rastro de sangue. Um homicida, e eu imaginei a frieza com que sacou a adaga de seu bolso e a afundou no poema.

Só depois foi que tive coragem de novamente abrir o livro na mesma página 47 e começar a tratar da questão com um pouco da racionalidade que me fora roubada pelo horror da cena. Eu me sentia como um investigador daquele crime, o que me caía bem tal minha solitude diante dos fatos. O poema em questão foi dedicado por Drummond A um ausente, e sublinhado como se segue:

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até os limites das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão de sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

O exercício de investigação de um fato misterioso é sobretudo um exercício de interpretação. E não é preciso ler Agatha Christie para saber que os melhores investigadores não são os que têm quaisquer interpretações, ainda que muito boas. Os que decifram o mistério, apontam o culpado e explicam suas motivações são aqueles interpretam como se adentrassem os complexos recônditos da mente criminosa.

Para mim, que nunca me atreveria a riscar um livro, quão difícil era a tarefa que se apresentava. Entender como alguém faria aquilo, porque o faria, quem o faria. Pois a primeira pista deixada não era outra senão o primeiro verso do poema. Nele, a palavra saudade. Ali, justaposta às palavras sentir e razão. Que crueldade para, num só traço vermelho, numa só punhalada, atingir de uma vez três palavras vitais que nunca estariam juntas sem o requinte inocente do poeta. Afinal, quem, senão os poetas, colocariam num único verso, sem colisão, o que é sentimento e o que é racional? Crime passional!

No exato momento em que eu tirava conclusões dessa primeira pista, como se me fosse uma doce contaminação, a palavra saudade trouxe a meus pensamentos os sentimentos de muitas pessoas cuja falta eu sinto. Os meus ausentes a quem, como Drummond, ainda que sem sua competência, dedicaria eu poemas. Mesmo com toda revolta pelo que diante de mim se apresentava – aquele escárnio aos mistérios sagrados de um livro – vi nascer uma ponta de prematura compaixão em meu peito. Imaginei o homicida, pela primeira vez, sem tal qualificação, e se posso aqui confessar meu pecado, tive por ele desde aquele momento uma fraternal solidariedade. O que leva um homem (supus que era um homem), senão sua confessa humanidade, a gritar a saudade que lhe bate ao peito, sublinhando um verso de um poema escrito a um ausente em um livro cujo nome significa adeus? Envergonhado do fracasso prematuro de meu empreendimento para levar à justiça o acusado, olhei de lado, disfarçando minhas lágrimas, a saber se alguém notara o que ali acontecia.

A segunda pista, pois, já não era pista. Era capítulo. Segundo capítulo da história que alguém me contava com palavras sublinhadas: quando se descobre que a saudade era de alguém que deixou o protagonista, cometendo o mais grave dos atos: o ato sem continuação. Os poetas têm essa inclinação, de dizer o nome do que acontece todos os dias, em todos os lugares, a todas as pessoas, mas que nunca é dito de forma apropriada. Nós diríamos que um outro foi embora, que coisa vulgar! E inebriados de ódio, raiva, cólera, diríamos “já vai tarde”. Os poetas tiram a emoção e colocam no lugar um nome tão puro que nos resume a um estado de semelhante pureza. Ir embora, já indo tarde, na poesia de Drummond, transformou-se em um ato com nome próprio, o ato-sem-continuação. É tarefa astuta dar nome às coisas, mas é uma proeza sem tamanho dar nomes aos acontecimentos – tal qual os poetas o fazem.

Cheguei então, coração à boca, ao terceiro e último sublinhar. A saudade do protagonista transformada em som. Eu, ouvindo o som das palavras de Drummond e dos traços marcados desse desconhecido que tem saudade de uma voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Como se todas as sílabas me viessem aos ouvidos, todos os fonemas dessa língua, ecoando em minha cabeça. Melodias mil, até que o grito de ai! Ai de ti, que se foi deixando atrás um ai de dor. Ai de ti, que veio sublinhar os ais do poeta. Ai de mim, que te desejei infortúnios quando tu já tinha todos.

Assim deixei na estante, voltando a seu lugar, o livro. Despedi-me com reverências, perguntando se alguém mais descobriria o mistério que ele encerra. Se acaso o descobrisse, esse alguém também se perguntaria o que me pergunto?: pode haver invasão maior de privacidade do que ler um poema sublinhado por outrem?

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