O fim e o começo

Publicado: 16/11/2011 em Uncategorized

É no fim. É exatamente no fim que se descobre que haverá começo. Como uma lei universal que rege os astros siderais em suas voltas em torno de estrelas, e também as coisas mais pequenas como insetos artrópodes que para crescer vão trocando de exoesqueleto a cada estação. Em tudo está a lei dos ciclos. A inquebrantável, a inviolável, a inquestionável lei dos ciclos.

Assim, com a racionalidade que nunca me escapa, mas com a mente que desvenda mistérios quando para de pensar, sinto-me neste fim das contas conectado à vida. Eu, como tudo o que vive, respeitoso dos ciclos. Diriam, escravos dos ciclos. Digo eu, reverentes a eles.

Chegar ao fim, por fim, é a evidência que se percorreu um caminho. Quando se chega ao fim, olha-se para o caminho de um jeito que não se havia olhado. O fim evoca, assim, todo o durante. Indo pelo caminho de volta, encontra-se o começo. O começo está no fim, e vice-versa. Pois, finalmente, entende-se que fim e começo são a mesmíssima coisa.

Dirão, eu bem sei, que isso tudo não passa de uma grande filosofia, uma arquitetura de palavras, algo que se escreve bonito mas não se vive direito.

A estes, direi eu agora: peregrinem.
Esta não é uma viagem dos sonhos. Não são dias de férias. Nem mesmo um tempo de repouso e descanso.

É o caminho que vem sendo perseguido ao longo da história humana. O caminho que vem sendo descrito como fino tal qual fio na agulha. O caminho pelo qual tem sido sacrificado tudo o que se tem. O caminho que se disfarça em belezas para esconder durezas. O caminho onde o amor deixa de ser uma palavra e se torna uma potência, o caminho onde este amor mata. O caminho escolhido pelos loucos mais sãos. O caminho cujo fim se encontra dentro, cujo começo é a face do Ser.

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Ao fim, os passos desses peregrinos se dirigiram pela última vez ao Lugar que não conheceu fim nem começo. O mesmo som de chuva nas centenas de pés, o mesmo silêncio da língua, o mesmo clamor de coração e alma. Dessa vez, a última vez antes da primeira, a chuva caiu do céu. Chuva fina, como uma gentileza a acariciar as folhas das plantas, as pétalas das flores, a lavar caprichosa as pedras do caminho.

Sem que os agradecimentos e honras últimas pudessem ser ofertados fora, pois a chuva empurrava esses peregrinos para dentro, esse Santuário se encheu não apenas das luzes que dioturnamente o fazem companhia, mas desses homens, mulheres e crianças que de longe vieram e estavam prestes a voltar. Não houve ninguém que entendesse diferente. A chuva era gentil não apenas com a natureza exuberante que circunda esse Ponto Adorado, mas com todos os peregrinos que puderam, pela primeira vez, ouvir uma prece recitada nos Recintos Sagrados. A voz da oradora ecoava pelas paredes, entrava em cada presente, como um dom que se recebia naquele momento, o dom de escutar. Todos ouviram. E porque ouviam, todos se calaram.

Aos poucos, a chuva deixou de cair. Aos poucos, os peregrinos foram se retirando. Aos poucos, as coisas todas acontecendo aos poucos.

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Enquanto tudo isso observo, reverencio cada um dos peregrinos. Os quarenta e quatro países de onde vieram, de grandes e poderosas nações a pequenas ilhas do Oceano Índico, em breve estarão recebendo de volta seus cidadãos com passaportes nas mãos. Eu visualizo o retorno de cada um deles como fagulhas soltas no ar de uma fogueira imorredoura. Quiçá encontrem gente feita de papel para que sejam também incendiadas. Quiçá não caiam em gente de pedra, como as velhas sementes caíram, pedra onde não há fogo que queima, onde nada germina.

Eu digo que tenham uma boa viagem. Eu os abraço e eu os beijo. Eu me despeço como se nunca mais os fosse ver apenas para ter a doce sensação de que estaremos unidos apesar de toda a distância. E assim caminhamos em direções diversas. E assim nos vamos para esse todo sempre. Eles, os peregrinos. Eu também.

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comentários
  1. Boa viagem, Peregrino!

  2. Ceres Andrade de Araújo disse:

    Querido André, vc é divino na arte de escrever, peregrino das letras, da arte de amar e espargir este amor.

    • André Kano disse:

      Eu agradeço muito as suas palavras. No final, eu creio mesmo que se as palavras existem e se elas podem ser ditas é porque criam entre duas pessoas a possibilidade da reciprocidade. Quando lhe digo amor, você pode me dizer o mesmo. É recíproco, querida.

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