A cada degrau

Publicado: 13/11/2011 em Uncategorized

Degrau pós degrau. Eles são centenas, do pé ao alto da montanha. Quis, mas não consegui contá-los. Ao subir escadas é preciso se concentrar no passo, no fôlego, no afã. Quantos momentos na vida existem que nos fazem esquecer de tudo, exceto os passos caminhados no enquanto? Momento de subir escadas. Raro momento, as escadas não são outras senão estas.

Pois quis a vida ser como escada estendida do chão ao céu. Desse mundo ao próximo. Não é fácil subir escadas. Menos ainda viver. Quando o corpo se apresenta diante do desafio de subi-las, a alma parece que já foi embora por saber que não irá suportar. Com os olhos montanha acima, Ponto de atração, vê-se a aspereza do caminho. Pior é viver, viemos sem nada saber. Recebidos com festa, autos natalícios, achando que isso enfim é vida. Então logo ouvimos o primeiro não vindo de quem nos ama, entendemos depois que a escada de viver é para poucos. Olho ao redor do mundo, quantos sobem escadas? Os homens estão sentados em degraus dos primeiros níveis. Contentes, não porque não saibam que existem cenários melhores para ver lá de cima, mas porque contentam-se com um pouquinho de um pouquíssimo.

As escadas, como a vida, cobram coragem. A coragem de dizer eu quero, de dizer eu persisto, de dizer eu vou até o fim. Desistir e voltar montanha abaixo é fácil. Por isso, há uma pequena tragédia em cada pequeno degrau, que o corpo sente nos músculos e a alma sente na vida. É possível dar a cada um deles o nome de uma dor diferente. Em cada nível, deixar impresso um sofrimento. E quem sabe um dia, no fim da escada, poder chorar em paz.

.

Estou subindo e lamentando cada degrau. Não há, entre os que sobem escadas, quem reclame mais de subi-las do que eu. Eu grito, minha voz é sangue. Eu suo, meu suor é sangue. Eu pranteio, e minhas lágrimas vermelhas tingem o chão a cada passo. Estou lamentando como um infante rebelde. Dizendo palavras vãs e todas as atrozes blasfêmias que a vida me ensinou. Suplico a cada degrau ser ele o último. Mas o último nunca vem.

Por tudo isso, a escada me lembra uma caminhada em círculos. Caminhada que nunca termina. Caminhar em círculos quando se tem a mente entorpecida pela vã ideia de que se está livre. Eu lamento, grito, suo, choro, eu me rebelo e falo absurdos – eu faço tudo isso porque vejo, ao subir esses degraus, que a vida foi uma caminhada em círculos no estreito calabouço de meu próprio ego. Escravo de mim mesmo. Escravo da solidão de mim mesmo. Escravo da escuridão que foi se perpetuando em mim sem que eu notasse que fui trocando os dias pelas noites, até que as noites se tornaram dias, e o sol não voltou a nascer.

Há um momento na vida de um homem – sempre acreditei nisso – em que ele sente que já não consegue mais. Eu estou tão tonto e absorto em meus passos escada acima que não consigo dizer quanto ainda falta para o fim. Alguém por favor me pergunte o que meu coração deseja. Ele dirá que quer parar. Uma parada por aqui. O coração quer parar onde sente que é chegado o fim. O coração quer parar de ditar o pulso. O coração quer parar de mandar na vida. Meu coração exausto de tocar o sino do tempo. Por que é que um dia nasci? Por que é que nunca morri? Eu peço chega. Mas não me chega. Nada me chega.

Então eu me envergonho, mas não nego que penso que Ele não me ouve mais. Escuta Ele os passos de minha longa escalada? Escuta Ele o batimento sem ritmo de meu velho coração? Ouviu Ele o clamor com lamentei nesta escada? Ouviu Ele as gotas lacrimosas que derramei em Seu caminho? E se não tem Seus ouvidos sobre mim, chega-me esse momento escruciante. Sofrer em silêncio a dor que exige clamores amplificados, porque gritar ao nada buscando tudo doerá ainda mais. Encolher com essa noite gélida de deserto e ter a areia como cobertor. Enterrar a mim mesmo para me proteger do frio que há nesse mundo, correndo o risco de morrer cheio de sonhos não alcançados – como o topo dessa montanha – porque a boca se encheu de areia. O dia não amanhece nessa escada. A vida veio de longe em sua hora escura, todas elas, as horas.

Se algo ainda põe em movimento meu ser, eis a ideia que nunca me deixou. A ideia de que ao menos seja possível subir mais um degrau. Apenas mais um deles. Só um. Eu me ergo, apoiando os joelhos no chão para depois sentar-lhe a planta dos pés. As mãos do chão às pernas, e depois à cintura. Sinto-me um velho homem de centenas de anos que se esqueceu de dormir. Lentamente ergo um dos pés, até que os dedos toquem o degrau de cima. Depois os metatarsos. Depois o calcanhar. Palmilho o chão para sentir alguma segurança. Respiro fundo. Respiro longo. Respiro intenso. Então prendo o fôlego e vou. Dar um passo. Subir um degrau. Que não é o último e que talvez nunca seja. Um degrau qualquer, esquecido no meio da escada da vida.

Força. Força minha. Vem Força minha, vem ajudar este velho corpo. Vem que a falida alma nada mais impulsiona. Vem minha Alma, vem repor o que perdi. Vem causar-me uma vez mais o espanto de ter ainda um pequeno fôlego para ter Contigo. Vem que tenho tanto esperado subir apenas mais esse degrau. Vem meu Coração, vem bater uma vez mais forte. Vem meu Amor, que eu Te abandono todos os dias, mas Tu ainda me coloca os Teus degraus em todos os meus caminhos. Vem agora porque se não vieres nada tenho que em mim vá. Vem minha Vida, vem depressa que a morte está perto demais. É nesse degrau que as coisas se decidem, ou se sobe ou se cai. Vem Tu que és meu passo, passa por mim, reconhece-me apesar de ser quem sou, e fica.

.

E eu caio | no degrau de cima.

Anúncios
comentários
  1. Ita Andrade disse:

    Eu estou colhendo as gotas que transbordam do seu jarro, ávida, atenta, continuamente.
    Muito obrigado.

  2. “Vem meu Amor, que eu Te abandono todos os dias, mas Tu ainda me coloca os Teus degraus em todos os meus caminhos.”

    É isso mesmo. Sergio Couto sempre dizia que Deus não larga a nossa mão, fomos nós que largamos a Mão Dele. Mas Ele continua, amorosa e pacientemente, esperando por nós.

  3. Bruno Kano disse:

    mano,
    cada degrau é um símbolo: nele vc sobe, pára e repousa. Contempla. Se recompõe e volta a subir.
    Tua vida foi assim e assim sempre será. Estou muito orgulhoso do que tenho lido por aqui…

    • André Kano disse:

      Suas palavras, Bruno, são provavelmente a coisa mais importante que li aqui. Porque a despeito da importância de todas as pessoas, você é meu parceiro de subida há tanto, na vida e no serviço, e para sempre será. Eu lhe tenho o amor que lhe tenho.

o que você pensa sobre?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s