Educar crianças

Publicado: 12/11/2011 em Uncategorized

Há mais temas de meditação do que roupas na bagagem de um peregrino. Quando não são trazidos de casa, surgem no caminho. A mente se perde sem que se consiga fazer escolhas. Tudo é importante. Tudo é fundamental. Tudo é prioritário. E foi andando que me deparei com Stephen Hall, um senhor de rara distinção, que me pediu uma pausa para meditar acerca de mais um tema: a educação de crianças.

Embora profundo conhecedor daquilo a que se propôs a falar, não era de conhecimentos que estavam repletas as suas asserções. Havia em cada palavra um profundo amor pela causa da educação, amor pelas crianças do mundo, amor de quem é adulto experiente a ponto de saber se encantar pela candura de meninos e meninas em tenra idade. Quando alguém fala com amor, todo o conhecimento que possui é secundário. Argumentos tornam-se complementos, porque quem fala é o coração.

Eu silenciei profundamente em longos e longínquos pensamentos, e compartilho aqui algumas das conclusões a partir das coisas que ouvi desse grande homem.

A primeira delas. As pessoas do mundo pensam, em sua grande maioria, que a educação das crianças é um dever dos pais e das instituições escolares. Na verdade, educar uma criança é um algo de tal monta, que deveria ser visto e tratado como uma obrigação de toda a comunidade. O exercício de educar crianças deveria ser encarado como o primeiro e maior dever que toda geração tem para com a próxima.

A segunda delas. É comum ouvirmos que as crianças são o futuro da nação, o futuro do mundo. E embora a afirmação contenha suas verdades, ela embute implicitamente em cada um de nós a ideia de que o dever de educá-las pode também ser tratado como algo a longo prazo. Nós vivemos vidas em que a tônica do para ontem domina todas as nossas relações e realizações. O futuro – que pode ser daqui a anos ou daqui a horas – é algo cada vez mais abstrato. As crianças e sua educação vão ficando, dessa forma, em segundo plano. De outro modo, deveríamos pensar crianças como agentes do presente, e não do futuro. Encará-las como seres que podem contribuir para as suas comunidades hoje, e não amanhã. Vê-las como essenciais à vida em sociedade e, portanto, meritórias de atenção equânime como a quaisquer outros membros que a compõe.

A terceira delas. A instrumentalização, por assim dizer, da sociedade em que vivemos vem retirando do ato de educar o aspecto moral, o desenvolvimento da virtude. As instituições educacionais, como concebidas em suas maioria, estão formando novos profissionais. Aplicam um currículo que desenvolve a habilidade de pensar de uma determinada maneira, de adequar a vida do estudante, desde pequeno, para preencher uma função no esquema de trabalho futuro. É uma educação formadora de homens que instrumentalizam profissões. As habilidades morais e emocionais (habilidades que provém da relação que o homem tem com sua espiritualidade íntima) são ainda muito desconsideradas. Temos uma escola que ensina a fazer coisas, mas que está falhando em ensinar uma criança a ser alguém. E talvez estejamos contribuindo para isso ao não refletirmos a respeito e/ou ao não nos pronunciarmos sobre.

Para essas três conclusões, uma quarta parece ser consequência direta. Se pensarmos a educação das crianças como uma responsabilidade universal, se as encararmos como agentes que contribuem e influenciam a sociedade no presente, e se concluirmos que a educação que se deve dar a elas não pode silenciar o aspecto espiritual do desenvolvimento de virtudes e aptidões morais e emocionais, então teremos de concordar que o envolvimento da comunidade neste serviço mais meritório deverá fazer com que todos estejam imersos em um processo de aperfeiçoamento contínuo e coletivo. Ensinar a si mesmo antes de ensinar ao outro. É possível vislumbrar um mundo amplamente melhor com a adoção desse único paradigma.

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comentários
  1. Fabulosas reflexões! Somente as palavras de um sábio têm o poder de combinar simplicidade e profundidade tal como se constata nessas quatro conclusões. Muito obrigado por compartilhar o que você aprendeu com Stephen Hall!

  2. Que presente esse encontro com Stephen Hall!! Há Alguém que está cuidando com muito carinho da sua caminhada, hein.

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