Olhos de águia

Publicado: 10/11/2011 em Uncategorized

Fecha os olhos, pois os olhos são cegos.

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Ele se foi há mais de 50 anos. Suas águias permanecem aqui. Ele as treinou para parecerem estátuas, imóveis como seres inanimados, mas eu sei, sei de cor[ação], que elas vivem por debaixo desse bronze, desse ferro fundido, desse aço, desse mármore, dessa pedra. A presença do jovem que morreu tão cedo está em cada uma dessas águias, e em muito mais – nos detalhes de suas mente metódica e minuciosa.

Ninguém me convencerá que o Guardião deixaria esse lugar sem guarda. Eu reafirmarei quantas vezes forem necessárias: suas águias vivem, a despeito da aparência. Muitos por aqui passaram, e muitos por aqui passarão, acreditando que elas são belos objetos de ornamentação paisagística. Eu lhes digo o contrário. Disfarçadas de adornos, elas guardam, em nome de seu amado, cada lugar desses lugares.

Eu tenho inúmeros motivos para acreditar nisso. Um em especial: se não fossem guardiãs do Guardião, elas não seriam águias. Entre todas as espécies, ele amava esse animal de rara nobreza, de visão aguçada, e de voo livre. O Guardião, penso eu, era uma águia. No sangue lhe corria a Linhagem do Alto. Nos olhos antevia anos e séculos distantes. Com o espírito inquieto e coração pleno, voava sobre o mundo para deixar-lhe uma herança imperecível. Ele, águia altaneira, deixou-nos suas atentas guardiãs por todos os lugares.

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Amanhece na baía de Haifa. Do centro do Carmelo, a águia patrulha quieta a imensidão do céu que aos poucos se transfigura. Eu me coloco em pé a seu lado. Mantenho meu próprio silêncio para não atrapalhá-la. Tento imaginar o que ela vê. Tento ver o que ela sabe. Até que ouço a voz dessa guardiã.

Ela me diz:
Fecha os olhos, que estes não te servem mais. Fecha os olhos, pois os olhos são cegos. Fecha os olhos, porque o que é preciso ser visto é preciso ser sentido.

Eu obedeço, e me mantenho quieto, estático, sem olhos mais. Sinto-me como a pedra da qual a águia é feita. Pedra não sente. Depois sinto-me águia. Eu estava certo, elas vivem dentro da pedra-armadura. Eu sinto o sol nascer na alma. Invade-me o sol. Toma-me o sol.

O novo dia nasceu, e ninguém viu.

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comentários
  1. Ita Andrade disse:

    …!

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