A cela

Publicado: 10/11/2011 em Uncategorized

Eu entrei na cela. Eu me sentei encostado em uma de suas paredes de pedra. Eu fiquei em pé e caminhei até a janela. E por ela, cerrada por grades, vi a beleza do Mediterrâneo, esse lugar que de tão antigo deve ter sido criado por Deus em seu primeiro dia.

Senti uma tristeza pungente. Aquele mar de um horizonte tão límpido, de águas tão extensas, num dia ameno de sol, agradável como só ele, e a tranquilidade do ambiente, o silêncio que se fazia, tudo evocava a tristeza que senti. Esse lugar não é uma confortável sala de estar com vista magnífica para o mar. Esse lugar é a cela do Prisioneiro.

Eu fechei os olhos para tentar me desvencilhar daquele estado de paz apenas para ter num relance alguma pista que me ofertasse uma ideia sobre o que sentia o coração sagrado que nesse lugar foi encarcerado. “Lembra-Te de Meus dias durante os Teus dias e de Minha angústia e Meu exílio nesta remota Prisão”. Esta cela onde estou é a remota Prisão. Mas não estou preso. Sairei daqui alguns minutos depois de entrar. Aqui não passarei anos, nem suportarei aqui a morte de um filho, nem terei de ver meus familiares adoecerem pela água putrefeita desse lugar, nem me será aqui negada a presença de amigos, nem serei eu acusado de crimes que não cometi para aqui ser trancafiado, e por isso essa não será a minha Maior Prisão. Eis porque me entristece tanto essa paz. Ela me impede de sequer ter um mínimo pressentimento do que sofreu o Marinheiro que nesta cidade prisão às margens do Mediterrâneo aportou Prisioneiro.

Eu estou em pé. E me dói ficar em pé. E as minhas lágrimas caem. Sofro eu porque agora comecei a perceber que nunca sofri. Eu me angustio porque passei a pensar nesse momento que talvez eu nunca tenha me angustiado. A vida que maltratou, parece agora nunca tê-lo feito. As minhas lágrimas caem na justa medida em que percebo que nunca caí porque, exatamente desta cela, fui eu seguro desde sempre.

.

O Mediterrâneo deve mesmo ser lindo em toda a extensão de sua costa tricontinental. Daqui, entretanto, ele é apenas um quadrante distante que nunca se alcança. Um sonho que de tão impossível faz-se melhor sem sonhá-lo. Mar salgado de lágrima.

Anúncios
comentários
  1. Ita Andrade disse:

    Obrigado

o que você pensa sobre?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s