Os gêmeos e a senhora

Publicado: 09/11/2011 em Uncategorized

Dizem que eu não deveria fazer isso, mas não me contenho e, inclusive a contragosto, não consigo deixar de observar as pessoas. Tem sido, ao longo da vida, um dos dons naturais com o quais provavelmente nasci e, agora que estou aqui, não consigo ser outro que não este ser eu, exatamente. Eu disse antes de vir que viria. E só isso. Não me preparei, não fiz nada que não providenciar as mínimas questões práticas da viagem. Mais que isso, apenas esperei. E cá estou. Um homem de sorte que ainda conta com a generosidade divina.

Se há algo que sou, então, sou aquele que presta muita atenção. Aprendi a observar desde pequeno, quando os ambientes físicos me fascinavam a ponto de me fazerem desenhar as plantas baixas dos lugares que visitava com lápis de cor ou giz de cera. Continuei observando os lugares, mas logo percebi que eles nada são sem as pessoas. Observei pessoas. Li pessoas. Entendi pessoas. Eu me identifiquei com o que elas têm de melhor e de pior, e por isso eu as amei e eu as repugnei. Há algo que faço bem nessa vida? Bem, eu observo.

Por isso parte do que sinto intensamente nesses templos e jardins vem do compartilhar da emoção que observo em meus pares. Eu choro por ser esse pouco que sou, mas também choro por ser esse pouco que eles são. Eu choro por agradecer por mim, mas também por eles. Eu choro todas as minhas lágrimas e, quando elas terminam, começo a chorar as deles. Nunca me senti tão conectado à humanidade e, se assim me sinto, acho que devo em parte essa sensação ao fato de ter, desde muito pequeno, aprendido a observar. Hoje sei que a observação me levou ao sentimento. E sinto muito. Eu sinto o mundo.

Eis então duas das coisas mais emocionantes que vi até o momento nesses dias de vida inteira.

A primeira: os irmãos gêmeos, 12 anos de idade, um menino e uma menina, aproximam-se do Limiar. Passos lentos e de mãos dadas. Cabeças baixas. Corpo ereto. Quando chegam a esse Lugar de desejo, descolam-se as mãos. Enquanto ela o observa, ele se curva, ajoelha-se, deita a testa ao chão e lá permanece por alguns instantes. Depois se levanta para observar sua irmã fazer o mesmo. Os dois em pé, retrocedem dAquele lugar sem dar as costas. Quando finalmente terminam, eu os olho nos olhos. Os três estão chorando.

A segunda: a senhora caminha com muita dificuldade, segurando uma bengala. Sua filha tenta ajudar na aproximação do Limiar, mas ela nega a ajuda. Quer ir com suas próprias forças. Irá rastejando, se preciso for. Mas irá por si mesma. Entendi, naquela senhora, que nenhum sacrifício parece grande demais quando o que está em questão é o amor. O dela, convertido em forças que não tinha. Passo a passo para andar menos de 10 metros como se fossem milhas. Ninguém a interrompe, ninguém a apressa. E cada passo que ela dá tem um pulsar do meu coração Eu não me movo para oferecer ajuda. Se ela cair no chão, agora eu sei bem, cairá como uma estrela cadente, brilhando no céu de escuridão desse mundo para ser acolhida num universo sem fim.

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Estou me misturando a desconhecidos. Aos poucos, estou misturando minhas emoções com as deles. Tenho dificuldade de estabelecer para mim o que sinto e o que vem do sentir alheio. Sinto que estamos todos nos misturando no mesmo Mar. Sinto que isso é uma pequenina visão do que é morrer de verdade.

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comentários
  1. Ita Andrade disse:

    Sempre nos juntamos aqui para receber o proximo quinhão e quando terminamos a leitura, um silencio absoluto paira em nosso aposento.

  2. Naila disse:

    Deixo aqui o meu silêncio. E mais…

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