O orfanato

Publicado: 07/11/2011 em Uncategorized

Num país que causa estranhamento aos ocidentais, cujo pequeno mundo termina no oeste da Europa, tudo soa como grego quando na verdade é hebraico. Órfãos de referências culturais, desavisados que por aqui caminham, mais parecem meninos perdidos. Por vezes, quando caminho eu, sinto-me um menino de rua. Vendo aqui meus doces no sinal sem que ninguém me escute. Sem que ninguém entenda a língua que falo. Se entendessem, talvez descobrissem que não quero dinheiro. Quero pai. Quero mãe. E um sorriso.

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Bem-vindo!

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Por isso tudo, chegar à Casa dos Peregrinos deve ser um pouco parecido com o que sente uma criança adotada. Há um encantamento de conto de fadas. Como se deitado se ouvisse a voz materna repetindo a história de ninar da sua vida. É uma história bonita. Ladainha que não enjoa.

Há pessoas que lhe sorriem e lhe dizem “você conseguiu!”, para que se dê conta do privilégio que é ser recebido nesse lugar. Elas lhe dão um crachá que tem seu nome e seu lugar de origem. No meu está escrito Brasil. Aqui, entretanto, a gente se sente como se fosse apenas humano. Origem: Terra. É que as duzentas pessoas com quem divido a insígnia de peregrino chegaram de muitos lugares. Há quem diga que isso se parece uma reunião das Nações Unidas. Eu acho que é o contrário. São as Nações Unidas uma tentativa de expressar institucionalmente o que a humanidade é de fato: um só povo.

Há pessoas que cuidam dos mínimos detalhes. Por exemplo, um rapaz que de tempo em tempo vem verificar se já é hora de encher as garrafas de chá. Ou um outro, que acompanha a trupe mundial para atravessar a rua. Eu queria dizer: meu caro, eu sei atravessar uma rua. Mas me calo. A gentileza dele é tamanha que silencia minha tola arrogância.

Há pessoas que cuidam de outras coisas tão importantes quanto o chá e a rua. Como a senhora que com uma voz de pura ternura nos explicou que atitude deveríamos levar em conta – nas vestes, nos gestos e na fala – enquanto estivermos com os pés por aqui. Quiçá, penso eu, quando os pés nos levarem de volta para casa assim também carreguem essa atitude. Passo a passo, um de cada vez, e eu vejo um mundo melhor caminhando para todas as direções do planeta.

E há coisas que impressionam porque são como o preto ao lado do branco. Cada peregrino pode comprar comida em pequenos mercados das imediações e levar para a Casa, onde geladeiras enfileiradas aguardam esses mantimentos. Cada peregrino ganha um recipiente plástico, onde cola um post it com seu nome. A comida vai à geladeira assim, e por lá espera você ao longo dos dias. Como sei que a comida lá estará? Eu não sei como sei, eu apenas sei.

Para entrar em alguns lugares, sapatos não são permitidos, nem bolsas, nem outros objetos de mão. Cada peregrino é convidado a colocar todas essas coisas no chão ao lado das portas. E dessa vez, nem os recipientes com nome estão disponíveis. Cada um sabe o que é seu. Passaram-se minutos. Passaram-se horas. Quando voltei, lá estavam meus sapatos, meu telefone e minha carteira. Um mundo melhor não é apenas possível: é simples.

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A Casa dos Peregrinos deveria se chamar orfanato. O lugar onde os órfãos de um mundo que ainda não é o lugar que se quer são acolhidos como se fossem todos filhos, todos irmãos.

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Órfãos há pouco...

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Órfã há muito...

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comentários
  1. Naila disse:

    Faz a orfandade parecer tão bela! Bom pensar em compensar a ausência de “pai” e “mãe” com inúmeros irmãos de alma e, assim, diminuir e até mesmo eliminar a solidão!!!

    • André Kano disse:

      Os peregrinos me pareceram as pessoas mais perdidas do mundo, as mais necessitadas de perambular de cabeças baixas os Lugares Sagrados. Não me eram irmãos em virtude, mas me eram íntimos na busca ardente.

  2. Samantha disse:

    Fiquei com os olhos cheios de lagrimas ao lembrar que tb somos orfaos em busca de um mundo melhor…. Lindo texto!!

    • André Kano disse:

      Orfanato onde cabe todo mundo é orfanato? Depois que você comentou isso me peguei a perguntar… Acho que de alguma forma a fraternidade universal é uma espécie de família tão atada que desconhece a ausência de pai ou de mãe. Estamos nela.

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