Na tela do avião

Publicado: 06/11/2011 em Uncategorized

A tela me mostra o lugar de onde vim, o lugar para onde vou, a que velocidade e a que altura. Tela, resumo da viagem. Como se viajar pudesse resumo. Como se a tela me dissesse quem sou, a vida condensada em quatro informações. Viagem é metáfora da vida. E assim por diante.

O lugar de onde parti é um lugar que não existe no mapa. Já percorri todas as milhas que pude tentando encontrar esse lugar, ciente de que os homens sabem onde nascem mas não sabem de onde vêm. Às vezes eu penso que a vida é como uma viagem de trás para frente. A gente parte achando que vai em direção ao futuro, mas na verdade é para o início que estamos sempre rumando.

O lugar a que se destina a vida é outro que não está nos atlas do mundo. Exatamente porque um copo pode conter o líquido, mas não o seu gosto, é que não se encontra lugar para que finde o homem. Que se mire a humanidade, com zelo e atenção, com cautela e alguma sensatez, e não se encontrará quem não vague em busca do que nunca encontrará por aqui.

Eu não conheço origem e não conheço destino. Tal é a viagem que empreendo, tal é a vertigem da vida. Sou como todos, aturdido pelo acelerar dos anos que os finalizam antes que possam se iniciar. Como se não houvesse mais tempo, como se não houvesse mais a passagem do tempo, como se tudo coubesse num lapso. A gente pisca e brinca de vivo-morto. E na tela a velocidade do voo: voamos devagar. Essa sensação de que enquanto aqui, tudo se acaba lá fora. Quando eu chegar ao lado dessa gente toda a esse lugar para onde estamos indo, talvez já não haja lugar. Talvez não tenhamos como pousar, por não mais haver onde pousar. Meu mundo se acaba enquanto eu voo devagar.

Estamos no alto de nossas presunções. No alto de nossas suposições. No alto de nossas parcas certezas. Voamos em altura de cruzeiro, atravessando os oceanos aos quais damos nomes para fingir que os conhecemos, seguros de que o avião não despencará, como a viagem, como a vida. Frágil humanidade. Eu, o mais frágil dos homens.

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comentários
  1. E quando se chega, lá e cá, talvez não exista mais eu, porque o eu já é outro. Boas chegadas e partidas. Bons encontros. Bons turbilhões de sensações.

  2. Tatiani disse:

    Somos uns fingidos.
    Artistas em julgar que conhecemos os nossos nomeados,
    assim como os caminhos que julgamos nossos.

    Texto bom é assim, reverbera.

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