Véspera

Publicado: 01/11/2011 em Uncategorized

Estou indo.

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Como é que alguém se prepara para uma viagem nunca antes empreendida em direção a um destino que não conhece? Alguns me perguntam se é alta a expectativa, se me toma de assalto a ansiedade por sua chegada. Mas não há expectativa, nem ansiedade. Se não há ciência do sonho que irá se sonhar, que expectativa e que ansiedade há em dormir senão esperar que o sono chegue? Eu não sonho com o sonho. Eu apenas espero e o tempo se encarrega de fazer um sonho para mim.

E mesmo sem preparação, eu vou. Ando pela casa, vou de quarto em quarto, pauso-me um tanto na sala, afundo-me no porão, subo ao sótão. Caminho pelo gramado em direção à edícula, paro ao pé do portão da rua. O olhar sobre o meu lugar acumula tanto a minha tristeza como a alegria que outros me deram. Partirei sem casa. Partirei sem as coisas da casa. Partirei sem outros. Levo só a mim.

Que meu coração já é fardo pesado para carregar.

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Eu me apresentarei diante de Ti com a consciência de ser tudo aquilo que posso, mesmo que tão menos do que Tu desejas. Disseste-me que ao longo dessa minha vida deveria eu empreender um esforço: saber-me. Então terás de mim tudo o que já me sei. Eu e a esperança de que Tu me aceites.

Ao pé de Tua montanha chegarei. Subirei passo ante passo, silêncio do caminho. Quando Te encontrar, eu Te circundarei, e depois deitarei a cabeça em Teu colo. Ser adulto para achegar-me a Ti, enfim ser criança e Te pedir o afago do céu. E depois atravessar a baía, ser recebido em Tua mansão, galantear-me sem vaidades para ter Contigo, baixar o olhar quando Tu me fitares, honra que me darás.

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A imperfeição que não pode dizer do que sinto. Imperfeição das palavras. Todas elas vãs. Os substantivos, que nos vêm para dar nomes ao mundo. Não sabem que há mais que mundo, e porque não sabem são os substantivos todos limitados. Parcos como chamar de deserto um punhado de areia nas mãos. Substantivos vãos. Escrever é vão.

Se escrevo é porque encontrei em mim nada mais que tais palavras e substantivos. Tudo isso que alinho com letras, prumo de meu olhar sobre a vida. Eu também chamo de deserto a areia que tenho nas mãos. Eu sou o primeiro a dizer que o mundo é o pó encardido que tenho nas mãos.

Se vou é porque caminho como quem escreve. Caminhada passageira de trilhas tortas. Uma vida sem prumo. Um deserto de horas e anos. E dei por me encontrar nesse momento, às vésperas da partida. Querendo fugir do mundo, tendo pés que só conseguem pisar areias, palavras que nada mais fazem por mim senão dizer do que deixo de ser a cada dia, esse que aqui ainda está antes de partir.

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Eu Te encontrarei. Em mim.

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comentários
  1. michelbehrl disse:

    O que eu penso sobre? Não penso, acho que sinto… me solidarizo com seu estado… de uma certa forma entendo… e definitivamente não sei o que te desejar – o que de certa forma é uma situação cômoda para mim. Mas sei que importa, sei que vale a pena, e acompanho, como sempre, como posso, como ouso tentar… antes, durante, depois, se quiser me contes, pois quererei saber, sempre!

    • André Kano disse:

      Michel, você sabe que a despeito de ter palavras ou não, caminhamos juntos uma já longa estrada. Por vezes você dirige, e eu durmo. Por outras, eu tomo o volante. E quase nunca há a necessidade de falarmos sobre. O que se sabe e o que se sente nos está claro como o dia que brilha em nossa estrada. Fui, e você foi junto. Você ficou, e eu também fiquei.

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