O peito estranho

Publicado: 28/01/2012 em Uncategorized

O que é que chamarei de meu se o coração já não faz lar em meu peito? Tenho esta casa que é minha. E dentro da casa tenho as coisas que juntei ao longo da vida. Mas, com que coração amá-las – as coisas, a casa, a vida – se o próprio peito me é estrangeiro? Quem não ama, nada tem. Quem não nasce de um sopro apaixonado, nasce sem.

Já faz tanto tempo e eu olho o dia nublado pela janela. Onde os pássaros se escondem em dias assim? Em que ninhos se calam os corações? Os olhos procuram, mas lá fora só há o branco intenso do céu. Meus olhos ardem. Sempre soube: muita luz, cega. Com que olhos procurarei pelo pulso que não sinto? Não ouço o pio. Nem aos pios.

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Já posso dizer que me sinto como forasteiro de meu próprio corpo. E toda a brisa que me toca em direção ao leste me arranca um pouco. Como se houvesse vendaval, eu não tenho onde me segurar. Tento me dar a mão. Eu não me alcanço.

Sou o cara mais estranho que conheci. Falo ao eu em terceira pessoa porque me sou estranho. Eu soo estranho em tudo o que digo. Tudo o que escrevo. Não sou diferente das pessoas, mas delas sou avesso.  Nunca a mim me acostumei, nunca fui para mim o café com leite das manhãs, nem o caminho de casa, nem o rosto no espelho. Meu lugar é na janela pela qual me vejo passar apressado. E pela rua andando me olho a me olhar da janela, esse vizinho com o qual nunca falei, mas que afirmo conhecer bem.

E no enquanto o céu branco de tanta luz que nos cegou, que nos enfiou nessa escuridão.

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Perdi o Amor, mas Ele me encontra.
Perdi-me, e a casa, e as coisas, e o corpo.
Sem nada, vendi minh’alma.
Consegui em troca um pedaço de pão dormido.
Eu durmo.

Eu sonho que encontro com Ele, esse Amor.

Comentários
  1. é uma das coisas mais bonitas que já li na vida.. estrangeiro do próprio peito, cego da luz que nos enfiou na escuridão, um pão dormido e um sonho. FODA.

  2. Jordana disse:

    Certamente consegue passar as angústia do seu ser, mesmo que no singular da terceira pessoa. Sinto-me extrangeira do meu ser também, porém disposta a encontrar o meu verdadeiro eu. O amor está em ti, está em mim, está do lado de lá e, também, no aqui e agora. Depende exclusivamente de como se olha.

    • Carla disse:

      Eu me pergunto se há um “verdadeiro eu” a ser encontrado….. ou se o “eu” é apenas uma construção que fazemos de nós mesmos, e, portanto, sempre inacabado, sempre desconhecido, sempre estranho ao obsevador….

  3. Bruna disse:

    nossa como me pegou isso André, “nunca fui pra mim o café com leite das manhãs”, puta merda! acho que é a imagem com a maior distância de um eu, com o outro.

    e pão dormido, uma das coisas que me dá mais pena e graça nessa vida.
    Lindo texto!

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