É como uma amnésia. Existe amnésia assim?, seletiva. Pois de todas as outras coisas eu me lembro bem demais, muito mais do que desejei lembrar. Eu lembro, da vida, mais do que ela me permitiu viver. Exceto isso: como vim parar aqui.
Que crime cometi? Contra quem imputei ilegalidades? Como me tornei suspeito e indiciado? Quando fui julgado e condenado? Por que nada disso me lembro?
Um prisioneiro que sabe o crime que cometeu, ainda que não o tenha cometido, terá para si, ao menos, a possibilidade do arrepender-se ou do revoltar-se. Se sabe contra quem agiu de má fé, de quem subtraiu, a quem agrediu ou assassinou, ao menos terá uma face para orar em favor ou para odiar com fervor. Se lhe é possível saber que pistas sua ação deixou aos olhos dos homens e como elas levaram suas mãos a agarrar-lhe o pescoço, ao menos terá ele a confirmação da lógica e da organização a que obedecem as coisas desse mundo. Se, por fim, sabe que de julgado, ainda que defendido, fora então condenado, ao cumprir a pena que lhe cabe, ao menos, confirma ciente das causas e das consequências de seus atos a justiça ou a injustiça dos homens.
Um prisioneiro que nada disso sabe porque nada disso se lembra, então, do que irá se arrepender, contra o que irá se revoltar, por quem irá orar, a quem irá desgraçar, a que lógica irá se ater, em que justiça irá acreditar ou amaldiçoar? A amnésia não é um lugar onde o sol nasce quadrado. A amnésia é um lugar por dentro onde nunca nasce o sol.
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Talvez tenha eu nascido assim. Condenado pelo que as mãos de meus pais cometeram. Eles, também condenados pelas ofensas de seus pais. Estes, da mesma forma, por meus bisavós. Como uma herança não apenas de riquezas, mas também de dívidas. Herança da qual desfrutamos presos. Cada geração, fruto da semente plantada pela anterior, amadurece e cai do pé, quer fruto bom ou ruim, outra vez semente, outra vez nascerá na próxima geração. Eu estou preso a este ciclo. Sou fruto e sou semente. Amadureço e apodreço. Delicio e enojo. Assim cumpro minha pena inalienável.
Se digo que é injusta uma justiça que me condena por crimes que não cometi; se julgo injusta uma justiça que me ordena o pagamento de dívidas que não contraí; em que mudará a situação em que me encontro? Ainda não serei eu esse prisioneiro que não se lembra de seu crime, quer tenha ou não o cometido, quer tenham ou não seus pais, ou seus avós, ou bisavós, quer todas as suas gerações precedentes? Pois se a amnésia é essa ausência de sol, ao menos é bom sorrir o sol de hoje por lembrar que tal ausência do passado ficou por lá. A amnésia é uma escuridão que foi, mas que já não há.
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O dia que nasceu hoje trouxe consigo uma única certeza. Eu sou um prisioneiro. Preso? – duvida de mim meu amigo querido. Pois ele, que me acompanha tão de perto, vê-me dia após dia andar pelas ruas e ir para onde aponta meu nariz. Ele sabe onde moro neste bairro de cidade, e sabe que durmo sob aquele teto todos os dias, de onde saio na hora em que desejo e para onde retorno quando me convém. Com a independência pela qual me forjei, trabalho e recebo por isso o dinheiro que me sustenta livre. Encontro, assim, com aqueles que me aprazem, entre eles este amigo querido. Preso?
Como falar sobre uma certeza que me afeta sem deixar vestígios em materialidades possíveis de serem vistas aos olhos? Nós olhamos nas nossas caras, bem de frente e bem de perto, e olhamos para as caras das pessoas que nos cercam, e olhamos para as caras das coisas que estão todas diante de nós, e nada há que nos diga de qualquer prisão que nos cerque. Nós nos dizemos, sempre que questionados: somos homens de bem, pagamos nossos impostos em dia, não desejamos mal a ninguém. E ainda assim me é certo de que sou um prisioneiro.
Se há certeza, pois, procuro os vestígios em lugares que os olhos não veem. Nós nos recusamos a admitir a existência do que nossos sentidos não podem comprovar, mas, que contradição, somos os primeiros a chorar, por exemplo, quando nascem nossos filhos ou morrem nossos pais. O lugar onde os amamos não se vê com os olhos, mas ainda assim dizemos não vi, não existe; não ouvi, não há. Se de um lado nos gabamos de um ceticismo todo racional, sentimos, e repletos de uma subjetividade toda humana, nós nos agarramos a certezas que dizemos estar em nossos corações. O coração, metáfora do invisível.
E assim, digo:
Amigo, fechemos os olhos pois a prisão onde resto não se pode ver.
Amigo, tapemos os ouvidos pois da prisão onde resto nada se escuta.
Amigo, cerremos a boca pois na prisão onde resto nada há que falar.
Amigo, contraiamos os dedos pois a prisão onde resto não se pode tocar.
Amigo, entupamos o nariz pois se nenhum sentido nos vale, que então sem ar morramos para eles.
Agora meu amigo vê. Agora meu amigo ouve. Agora meu amigo fala. Agora meu amigo toca. E respirando, agora meu amigo descobre que ele, assim como eu, é também um prisioneiro.
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Quisera eu cumprir minha pena em uma cela e de lá um dia sair livre. Sofrer por um tempo determinado a solidão e o tempo perdido, mas sofrer esse tempo e nem um instante a mais. Seria árduo e seria doloroso, mas seria só isso.
A prisão onde me encontro, entretanto, é puro deleite. Tudo o que deseja o desejo, desejo há. Tudo pelo que se apaixona a paixão, paixão há. Essa prisão é o lugar da plena vazão dos impulsos, de todos os direitos individuais, o lugar do permitir-se ser feliz, um lugar menos castrador. Nessa prisão se vive intensamente, prazerosamente, e a gratificação é instantânea e sem medidas. Nessa prisão se vive como se todo o dia fosse o último dia da vida de toda a humanidade.
Aqui se vive assim. Nós, prisioneiros, se algo desejamos – e nós a tudo desejamos a todo instante -, então que se faça desejado o desejo, e que ele venha até nós o quanto antes, e que dure para sempre até o próximo desejo. Se nos apaixonamos por algo – e nós por tudo nos apegamos apaixonados -, então que se faça apaixonada a paixão, e que ela nos preencha até o último milímetro de pulmão, até o último centímetro cúbico de artéria, até o último fôlego, até a última pulsação.
Por isso, amigo, nossa prisão não cerceia a vontade que temos. Prisão que adoramos, ela nos preenche com toda a possibilidade de arbitrar a vida que queremos. Mas veja, amigo, comigo veja a crueldade que essa prisão esconde melifluamente. Ela nos engana com seus sorrisos, ela nos trai com seus sussurros, ela nos solapa a liberdade nos dando os campos do mundo para caminhar. Mas o mundo, amigo do meu peito, por maior que seja ao corpo, é ainda tão pequeno à alma. Temos no corpo a sensação de nos movermos milhas e minhas sem que alcancemos fim. E assim um dia morreremos com a crença de que fomos livres. Mas, amigo, já que já estamos cegos, da suposta escuridão dessa cegueira, compreendamos juntos como a vida é lapso, como o mundo não é campo, mas pasto, como as milhas que caminhamos se medem em palmos. E como é solitária a sensação de liberdade quando se está trancafiado em si mesmo, confinado por si mesmo, algemado a si mesmo. Numa solitária, morreremos assim.
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Amigo.
Ele me pergunta: quem são essas dezenas que aqui conosco estão?
Eu lhe devolvo: dezenas?
Ele me pergunta: quem são essas centenas que aqui conosco estão?
Eu lhe devolvo: centenas?
Ele me pergunta: quem são essas milhares que aqui conosco estão?
Eu lhe devolvo: milhares?
Ele me pergunta: quem são essas milhões que aqui conosco estão?
Eu lhe devolvo: milhões?
Ele me pergunta: quem são essas bilhões de pessoas que aqui conosco lotam essa prisão?
Eu lhe devolvo: a elas pergunte você?
Será digno de um homem apontar a prisão do outro? Será digno que digamos eles antes de dizermos nós? Disse eu a você, amigo, esta é a sua prisão antes que você a si mesmo dissesse estou preso?
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Até quando preso a essa liberdade? Prisioneiro que sofre, lamento por entre as grades do eu, e já não suporto minha própria companhia. Aos poucos, renunciar meus nomes. Aos poucos, deixar pelos cantos meus títulos. Aos poucos, aquietar o corpo e a língua. Aos poucos, aquiescer ao fim dos dias. Aos poucos, esperar com paciência. Aos poucos, o fim da prisão.

