Passou rápido. O ano.
Quem é que sabe quanto tempo leva um ano para passar?
365 dias? 366?
Em quanto tempo esses dias acontecem? Quanto tempo dura um dia?
24 horas? 1.440 minutos? 86.400 segundos?
Oito-milhões-seiscentos-quarenta-mil centésimos?
Vezes 365? Vezes 366? – o ano.
E assim por diante?
Quantos números existem para contar a passagem do tempo?
Vou fazendo contas e os números se avolumam como uma vaga de oceano infindável.
Se o ano não terminar, como alguém que abre o ralo do mar, morrerei afogado.
Contar o tempo é uma apneia que não termina e enfim mata.
Mais cedo ou mais tarde, entra e sai ano, todo mundo morre.
Pois eu pergunto, quem é que sabe quanto tempo leva um ano para passar?
Que resposta me dará esse presidiário?
Que resposta me dará esse alto executivo?
Que resposta me dará essa dona de casa?
Que resposta me dará esse monge?
Que resposta me dará esse agricultor?
Que resposta me dará esse nômade?
Quantos tempos diferentes leva um ano para passar?
Eu que não sou presidiário, alto executivo, dona de casa, monge, agricultor ou nômade;
Eu que de mim sei todo tempo vão, toda efêmera passagem, tudo o que vem e vai no piscar dos olhos;
Eu digo que passou rápido. O ano.
E por dizê-lo, sinto que não sou mais dono do meu tempo.
Meu tempo já não é meu. Eu é que dele sou.
Não sou eu o seu senhor, mas eu o seu vassalo.
Não o agendo, ele é que me diz o que faço.
Ele é que me diz, sobretudo, tudo aquilo que não irei fazer.
E é assim que já não sei quanto dura um ano.
É assim que digo que passou rápido. O ano, mesmo sem sabê-lo quanto.
O que sou, ou o que eu me torno, vai acontecendo na passagem do tempo.
É aquilo que fiz hoje. E ontem. E anteontem.
É aquilo que penso hoje. E amanhã. E depois de amanhã.
Quem, como eu, poderá viver para ser alguém que acontece na passagem de um tempo que não lhe pertence? Há como calcular a angústia dos que, como eu, contam o tempo para ter uma suposta certeza do quanto desse tempo que nem lhes pertence está sendo perdido enquanto o contam?
No cansaço do fim do ano, no cansaço de todas as contas, no cansaço de não ter sido tudo o que pudera, eu paro para olhar meus pares por aí. Se me angustia a situação que confesso, digo que me entristece o que observo.
Porque eu vejo os homens distraídos.
As vitrines de roupas brancas.
O trânsito na saída das cidades.
Os fogos de artifício.
As superstições.
A contagem regressiva.
E sem nada de novo, chega de novo o ano novo.
Eu vejo os homens acordarem no primeiro dia do ano.
Já à espera do fim. Já à espera do novo.
Eu vejo os homens assim, sem que os anos passem por eles,
E se passam, os homens distraídos com o ano novo.
E a vida passa por nós.


Adoro esse tema… e esse texto traz perguntas muito interessantes… vou pensar a respeito também…
compartilhe depois o que pensou, p favor.
[...] pelo texto de André Kano sobre Ano-Novo, compartilho algumas idéias a respeito do que costumamos chamar de Ano-Novo – já aviso que [...]
Obrigado pela menção e pela grande sugestão do que deveríamos fazer de fato no fim do ano.
Sejam exaltados os homens que na agitação do tempo, param para refletir o sentido do tempo.
Onde estão eles, Valéria?
A verdade é que nós é que passamos muito rápido! Um dia, estamos abrindo os olhos e, num piscar de olhos, nossos olhos estão se cerrando para sempre…. “Carpe diem!”
Rápido demais, não? “simples sombra que se desvanece mais veloz que um piscar de olhos”.
Calendários são convenções sociais. Acordos para controlar e medir os movimentos de Chronos-furioso e, já aqui (bem) descrito, implacável. Façamos acordos mais pessoais com ele. Ciclos mais parcimoniosos com nossa forma individual de medir o tempo. Mais real, menos convencional e, assim, angustiante. No mais, sigamos a observar com curiosidade os ritos dos que creem que ‘um ano’ só pode se findar ao rasgar da última folhinha… “E sem nada de novo, chega de novo o ano novo.”Beijos André!
Kely, obrigado pela leitura e também pela sugestão: “façamos acordos mais pessoais com ele”.
Lendo seu texto, me recordei que já faz algum tempo que tem pensado algumas coisas parecidas, toda vez “que chega o ano novo”… sobre como as pessoas percebem e vivenciam esse momento.
Achei bacana a maneira como você soube captar essas reflexões e organizá-las de modo coerente e ao mesmo tempo, agradável.”
“…Eu vejo os homens assim, sem que os anos passem por eles,
E se passam, os homens distraídos com o ano novo.
E a vida passa por nós.”
Parabéns, André.
Oi Mônica. Fico muito feliz que vc encontrou algum eco nessas palavras para as coisas que vc pensa e sente. Espero que isso aconteça mais vezes e espero continuar ouvindo suas impressões.
O ano passou para mim o tempo de quatro estações. Assim como o mês dura o tempo de quatro luas, onde as que mais me importam são a nova e a cheia. Ainda assim esse é mais um verão, sem que signifique vida nova, ou ano novo. O que é novo para mim são os ciclos, as fases, os desafios. Estar em 2012 é só um acaso do destino.