Vou morrer no alto da Montanha, no topo onde me sentarei fatigado da subida de uma vida inteira, escalada por cima do ego, eu lá terminarei. Subo em direção à morte com os pés que me foram dados, já calejados de tanto seguir por aí, encardidos de tanto pó que há no mundo. Entre tantas coisas efêmeras de um mundo efêmero, a poeira é a pior. Porque finge ser leve, como se vê o vento a leva, até que sem que se a note, senta-se sobre nós e fica. Encardidas almas da poeira efêmera do mundo. Nós somos assim.
Por isso tudo, quando eu morrer no alto dessa Montanha, não me tornarei pó. Vou morrer água. Um dia eu serei água. Ou porque de tanto prantear a dor que há no mundo, desmancharei a alma que tenho como um torrão de açúcar mergulhado no fundo de um copo. Ou porque me lançarei Montanha abaixo já sem pés de carne e osso, contando apenas com o pé da correnteza. Eu, um riacho saltando por entre escadas de pedras, água imorredoura.
Por mim passarão, então, sem que percebam, homens que também sobem pela vida enquanto desço eu pelas águas da morte. Essa morte que não mata, única e verdadeira. Morte de quem perde todo o afã para enfim se contentar com a organização das coisas criadas – água que sempre desceu e para sempre descerá a Montanha onde nasce e morre.
E se não houver mais barreiras daquilo que sou, se não me for represado o acesso por causa de tudo o que fui, depois de todos esses acontecimentos memoráveis da vida e da morte, dos quais se depreende que grande graça é poder ser essa água que corre e escorre ao sabor do Desejo Universal, desaguarei na baía desse Mar Antigo para desaparecer de mim. Enfim, limpo e inocente.
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é como se os sons e as imagens estivesse mais do que sincronizados, mas unidos.. É linda essa edição!
é como quando as cores se juntam todas para formar o branco, deixando de ser..