Há mais temas de meditação do que roupas na bagagem de um peregrino. Quando não são trazidos de casa, surgem no caminho. A mente se perde sem que se consiga fazer escolhas. Tudo é importante. Tudo é fundamental. Tudo é prioritário. E foi andando que me deparei com Stephen Hall, um senhor de rara distinção, que me pediu uma pausa para meditar acerca de mais um tema: a educação de crianças.
Embora profundo conhecedor daquilo a que se propôs a falar, não era de conhecimentos que estavam repletas as suas asserções. Havia em cada palavra um profundo amor pela causa da educação, amor pelas crianças do mundo, amor de quem é adulto experiente a ponto de saber se encantar pela candura de meninos e meninas em tenra idade. Quando alguém fala com amor, todo o conhecimento que possui é secundário. Argumentos tornam-se complementos, porque quem fala é o coração.
Eu silenciei profundamente em longos e longínquos pensamentos, e compartilho aqui algumas das conclusões a partir das coisas que ouvi desse grande homem.
A primeira delas. As pessoas do mundo pensam, em sua grande maioria, que a educação das crianças é um dever dos pais e das instituições escolares. Na verdade, educar uma criança é um algo de tal monta, que deveria ser visto e tratado como uma obrigação de toda a comunidade. O exercício de educar crianças deveria ser encarado como o primeiro e maior dever que toda geração tem para com a próxima.
A segunda delas. É comum ouvirmos que as crianças são o futuro da nação, o futuro do mundo. E embora a afirmação contenha suas verdades, ela embute implicitamente em cada um de nós a ideia de que o dever de educá-las pode também ser tratado como algo a longo prazo. Nós vivemos vidas em que a tônica do para ontem domina todas as nossas relações e realizações. O futuro – que pode ser daqui a anos ou daqui a horas – é algo cada vez mais abstrato. As crianças e sua educação vão ficando, dessa forma, em segundo plano. De outro modo, deveríamos pensar crianças como agentes do presente, e não do futuro. Encará-las como seres que podem contribuir para as suas comunidades hoje, e não amanhã. Vê-las como essenciais à vida em sociedade e, portanto, meritórias de atenção equânime como a quaisquer outros membros que a compõe.
A terceira delas. A instrumentalização, por assim dizer, da sociedade em que vivemos vem retirando do ato de educar o aspecto moral, o desenvolvimento da virtude. As instituições educacionais, como concebidas em suas maioria, estão formando novos profissionais. Aplicam um currículo que desenvolve a habilidade de pensar de uma determinada maneira, de adequar a vida do estudante, desde pequeno, para preencher uma função no esquema de trabalho futuro. É uma educação formadora de homens que instrumentalizam profissões. As habilidades morais e emocionais (habilidades que provém da relação que o homem tem com sua espiritualidade íntima) são ainda muito desconsideradas. Temos uma escola que ensina a fazer coisas, mas que está falhando em ensinar uma criança a ser alguém. E talvez estejamos contribuindo para isso ao não refletirmos a respeito e/ou ao não nos pronunciarmos sobre.
Para essas três conclusões, uma quarta parece ser consequência direta. Se pensarmos a educação das crianças como uma responsabilidade universal, se as encararmos como agentes que contribuem e influenciam a sociedade no presente, e se concluirmos que a educação que se deve dar a elas não pode silenciar o aspecto espiritual do desenvolvimento de virtudes e aptidões morais e emocionais, então teremos de concordar que o envolvimento da comunidade neste serviço mais meritório deverá fazer com que todos estejam imersos em um processo de aperfeiçoamento contínuo e coletivo. Ensinar a si mesmo antes de ensinar ao outro. É possível vislumbrar um mundo amplamente melhor com a adoção desse único paradigma.


Fabulosas reflexões! Somente as palavras de um sábio têm o poder de combinar simplicidade e profundidade tal como se constata nessas quatro conclusões. Muito obrigado por compartilhar o que você aprendeu com Stephen Hall!
Stephen Hall foi mesmo um presente. E depois Kiser Barnes, você viu?
Que presente esse encontro com Stephen Hall!! Há Alguém que está cuidando com muito carinho da sua caminhada, hein.
Ele saiu da Austrália. Eu saí do Brasil. Encontramo-nos em Israel. Parece perfeito. E é.