Não há nada que um peregrino faça mais do que caminhar.
Nós caminhamos nessa “senda pedregosa” em direção ao Rei. Um caminho de chão alvo, acompanhado das árvores desse árido ambiente. No lugar onde queria que a vida renascesse no coração dessa gente toda, repousou Sua cabeça coroada para sempre. Há coisas vivas nesse deserto, mais do que nossos olhos podem contemplar. É por isso que fechamos os olhos. Misteriosos desígnios de Sua Majestade. Então nos damos conta de que pouco nos damos conta.
Ao chegarmos no portão de Seu palácio, fazemos pausa. É o primeiro limiar que nos é aberto. Os guardas nos olham atentos e em silêncio. Com a cabeça, enquanto passamos, fazem eles uma respeitosa reverência a cada um de nós. Então nos damos conta de que hoje somos os convidados reais. Os jardins verdejantes, o canto dos pássaros, o vento. A combinação das cores das flores, e outros pequenos bichos. É a visão que nos foi reservada enquanto nos aproximamos da porta de entrada.
Sacamos os sapatos, descobrimos as cabeças. Um a um, em fila, seguimos os tapetes persas que se estendem diante de nós. O jardim de inverno no centro do salão principal, com suas claraboias a iluminar de clarividência as mentes presentes, Por isso não é preciso que ninguém nos diga, estamos quase na Presença Real.
Enfim, nós nos encontramos atônitos. Até onde nos é permitido chegar – poucos metros de distância de onde o Rei repousa – há a visão de Seu pequeno e imponente quarto. Simples, mas poderoso. Uma visão que se esvai em pouquíssimos instantes quando nos sentimos impelidos a baixar a cabeça. Uma visão que se apaga quando nos sentimos impelidos a nos ajoelhar. Uma visão que como se nunca houvesse existido quando nos sentimos impelidos a deitar a testa sobre esse limiar. Uma visão que se carrega para sempre quando nos sentimos impelidos a beijar o chão onde outros se ajoelharam como uma forma de agradecer o privilégio de também fazermos o mesmo.


Fiz essa viagem com vc de novo até a presença do Rei. Valeu ! ;-)
Às vezes penso sobre o privilégio de olhar para os lados e ver que não estou sozinho nos atos de reverência. A Corte é ampla, estamos nós nela.