É como a chuva caindo do céu no chão. Chuva que cai sem parar. Foi o que pensei ao ouvir o som da caminhada. Quatrocentos pés pisando esse cascalho de telhas alaranjadas. Os sapatos sobre as telhas e o atrito a criar esse som de chuva que eu ouvi. Pela primeira vez na vida me senti uma gota d’água sonora. Não ouvi minha respiração, não ouvi meu coração batendo, não ouvi vozes, não ouvi nada além dos passos de chuva. Acho que nem eu, nem ninguém, respirava. Acho bem que houve uma parada cardíaca coletiva. E ninguém falava porque eu e esses com quem ando descobrimos juntos que não havia palavras apropriadas para aquele momento.
Nós circundamos nesse caminho de passo lento – chuvisco de fim de tarde – um Ponto. Éramos pontinhos de um grande círculo, atados pela alma ao raio, todos iguais. Às vezes um de nós parava para respirar, e aí sabíamos que ainda estávamos vivos. Outras vezes alguém parava porque não podia mais andar, e aí sabíamos que estávamos perto da morte. Viver e morrer para ter a chance de circundar nesse caminho. Ver a vida como essa força que atrai ao centro sem que o mundo nos tome pela tangente.
E então paramos. A chuva de som se aquieta. Silêncio. Não há passo, nem pulso, nem suspiro, só há suspensão. As portas se abrem. E volta a chover. Chove dos olhos. Minhas pupilas são nuvens negras. Carregadas com emoção de trovões e relâmpagos. E todo esse meu céu desaba na terra de uma só vez. Inunda planícies, enche os vales. Rapela montanhas, escorre por escarpas. Leva tudo o que vê pela frente, destrói o mundo que se tem dentro de si. Eis o dilúvio.
Com a canoinha da náufraga alma, adentro o Recinto.
Rema-se o corpo com o que sobrou de si. Vai-se ao Limiar. Acabam-se as forças. Afoga-se o resto.



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LINDO texto, André….. senti-me em peregrinação, ao seu lado!!!! Muito obrigado!
A maior peregrinação é alegrar o coração humano, não é? Pois você alegrou o meu ao me fazer saber que estava comigo.
Que belezura, o texto, o estilo, a suavidade, tudo, tudo regado a muito espírito, no ponto de onde orbita a vitalidade pro mundo. Quê dizer?! Que seja o que se sente, se pensa ou cogita.
Eu espero que essas palavras sirvam para me lembrar, e a quem assim desejar, do espírito com que foram escritas e, especialmente, do Lugar de onde elas retiraram sua inspiração. Esse Lugar permanecerá sendo a maior beleza que esse texto pode ter.
” E ninguém falava porque eu e esses com quem ando descobrimos juntos que não havia palavras apropriadas para aquele momento.” Lindo texto.
Obrigado Shirley. O silêncio é uma forma linda de oração. Uma das mais sinceras…
André você traduziu em palavras o que a alma revela naquele Sagrado momento. Obrigada, me senti circulando o Santuário. Saudades