Céu de nuvem

Publicado: 17/03/2011 em Uncategorized

Olha pro céu, que olhar pro céu anuvia a cabeça, especialmente se houver nuvens. Nos dias em que a terra só lhe traz desgraças, olha pras nuvens, olha pro céu. Essa atração que todos têm pelo que lá de cima vem – será que vai chover? [minha vó dizia que se houver nuvens em formato de rabo de galo vai chover em no máximo três dias, sempre deu certo] – e não é só água que vem do céu. Essa atração natural é a alma querendo partir pelos olhos, que o corpo cansa nos dias quentes, os pés incham, as pernas bambeiam, as costas se curvam e os braços não alcançam. Olha pra cima quando tudo for assim.

Dias nublados não são ruins como dizem, e, aliás, como já ensinava meu velho girassol, “há de se ter a lembrança do sol dentro de si quando não se pode olhar para ele”. Nem o sol em si é tão bom assim como dizem. Experimente andar num deserto e as nuvens serão as únicas árvores que darão sombra à testa. E há nuvens em formas de árvores frondosas. Nuvens são o algodão-doce dos anjos. Mas o que eu gosto mesmo de ver nelas é o ar. Nuvem é um ar que se vestiu pra passear.

Outra coisa importante a dizer sobre as nuvens é que elas são todas efêmeras. Aparecem e somem. Caminham e mudam de forma. As nuvens esquecem de perdurar. E também por isso é importante olhar para o céu. Para lembrar dessa constante impermanência das coisas diante da permanência da abóboda celeste. Há alguma imagem mais poderosa a respeito da própria vida do que essa, nuvens que vem e que passam efêmeras diante da infinitude de um céu eterno?

Por tudo isso, olhe pro céu. Não importa que pouco ou nada saibamos a respeito do que nossos olhos não atingem, olhe pro céu. Mesmo sem saber porque, uma nuvem lhe sorrirá.

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Esse post é dedicado a Ilana Reznik, quem me mostrou o manifesto.

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Abaixo, um set meu de sete céus!

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Comentários
  1. Ilana disse:

    já comentei por facebook o quanto fiquei comovida com este texto, mas preciso registrar por aqui também. foram pelos menos 5 suspiros enquanto lia. um bom número para um dia em que o ar não se vestiu muito para passear. belíssimo texto! beijos!

  2. Luiz Coutinho disse:

    Um post maravilhoso, agregado a fotos belíssimas. A aparente singeleza do seu texto é a porta de entrada para uma profusão de imagens poéticas plenas de particular beleza no uso da palavra. Muito lindo, André. Inspirador e tão suave quanto as próprias nuvens que você desenha com o livre arbítrio da imaginação.

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