Ver as flores, e os cheiros

Publicado: 24/02/2011 em Uncategorized

Venho de uma família de floristas. Minha bisavó, nona italiana, esculpia flores em sabonete. Minha infância, de alguma forma, tem cheiro de phebo lavanda. Depois veio minha avó com seus doces em forma de flor. Minha infância, de alguma forma, tem cheiro de açúcar cristal dissolvendo em grandes tachos. Em seguida minha mãe, que primeiro desenhava flores em lençóis e passou a pintá-las na seda. Minha infância, de alguma forma, tem cheiro de parafina quente que ela usa para desenhar no tecido.

Cresci entre flores e seus perfumes, impregnado como um pequeno polinizador. E a cada lugar para onde fui levei comigo um pouco deles, e a cada pouso dado um rastro deixado. Às pessoas um pouco de phebo lavanda, açúcar de tacho e parafina quente dei sem que soubessem exatamente o que era que as dava.

.

A cada dia mais, perambulo por aí, pelas ruas que a cidade abriu para mim, parando vez ou outra em lugares onde o desejo me aponta. Continuo olhando coisas e as coisas continuam me dando alumbramentos [uma das palavras que mais gosto das que estão no dicionário], tal como dia desses vi Tulipa Ruiz falar a respeito ["meu primeiro alumbramento com o desenho vem das capas de discos velhos de vinil"].

A cada dia mais, menos pensar. A cada dia mais, ver de ver somente. A cada dia mais, exercitar sem esforço algum ter um “olhar nítido como um girassol”. Vejo cada dia mais assim para ver chegar o dia de um jeito assim como Alberto Caeiro:

(…)
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
(…)

.

O que há de mais belo nas flores é a simplicidade com que elas existem. Há técnicas delicadas para que se saiba esculpir uma flor num sabonete, fazer um doce em formato de flor, pintá-la com mil cores misturadas à água sobre um pedaço de seda. Minha bisavó, minha avó e minha mãe levaram uma vida inteira aprendendo como fazer flores. Mas com que facilidade as flores se fazem a si próprias. Tão simples que não parece que vivem. Às vezes eu penso que as flores só acontecem.

O que há para pensar quando se vê uma flor? Elas estão simplesmente ali como um acontecimento improvável, e o que mesmo há de se saber sobre? Que tempo perdido tentar entender os porquês envolvidos no fato de que uma flor desabrocha diante dos olhos ou que outra murcha e fenece no momento seguinte. Que desperdício, penso agora, uma vida inteira que se passa como se flores existissem para ser entendidas.

.

Eu disse uma vez que “as flores sempre lembram das coisas que a gente se esquece”. Flores me lembram de usar os olhos para ver, tão somente.

.

Se um dia à sua porta alguém bate e vai embora antes que você atenda, e se esse alguém antes de desaparecer, antes de você atender, deixou-lhe flores ao pé da porta, eu sempre digo que só há uma opção entre duas possíveis para você: deixar as flores onde estão para que morram logo ali ou colocá-las num vaso com água fresca para lhe enfeitar a janela. Parece tão simples e tão improvável a cena, e a decisão tão boba e elementar. E a cena e a decisão acontecem na vida de todo mundo, todo dia, e ninguém vê porque todo mundo está ocupado demais em pensar a respeito.

.

Nos ouvidos, desde a infância, os Titãs ainda prometem que “as flores de plástico não morrem”. Deve ser por isso que flores de plástico são tão estranhas. Que graça há em não morrer?

.

Comentários
  1. mari disse:

    ah para.

  2. Anônimo disse:

    [...] Seu rubro é de todo o amor e toda a dor que há no mundo. Que as rosas são, de todas as flores, as mais belas e mais tristes. Uma rosa viva está no mundo. Alguém a colhe de seu frágil caule e ela passa a ser no coração de alguém. Nasce para morrer flor. Morre para nascer de amor. Por isso digo que as flores de plástico são tão estranhas: que graça há em não morrer? [...]

o que você pensa sobre?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s