Não faço ideia se é a principal diferença, mas certamente é a que mais me chama a atenção. Quando você vê uma paleta de tinta óleo, guache, e muitas outras, a beleza do colorido é sempre algo encantador. Estão lá as cores, cada uma em seu lugar, esperando serem pinçadas e pinceladas sobre a tela branca. Um pouquinho de uma mais um tanto de outra, e novas cores surgem, num policromatismo de encher os olhos.
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Mas experimente olhar para uma paleta de aquarela para seda e certamente você dirá que há algo de errado com ela. Primeiro porque não é uma paleta. A tinta tem água como solvente e, sendo líquida, precisa ser armazenada em copos. E dispostos, um ao lado do outro, cada qual com sua cor, o que se verá é na verdade um tom monocromático enfadonho e cheio de mesmice. Algo como preto, como marrom muito escuro. Algo morto.
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Para mim, essa é a diferença que mais salta aos olhos e que mais fornece elementos para chamar a aquarela sobre seda de pintura mágica. O olhar da artista precisa ser treinado. Anos, décadas de treino. Até que se descubra as diferenças entre preto e preto, onde estão todas as cores. O olhar do artista precisa extrair desse tom de morte uma vida que será escorrida pela seda. Numa alquimia difícil de entender, essas cores sem cor vão sendo produzidas pela constante mistura, diluição e concentração de água e tinta. Até que se obtenha a cor exata, que aos olhos outros são a mesma cor.
Ninguém que entre em um ateliê de aquarela sobre seda deixará de notar que a falta de cores, a falta de telas, muitas vezes a falta de pincéis, mas a presença de secadores de cabelo, de sal grosso, de formas de gelo, de aquecedores elétricos e até de escovas para limpar sanitários fazem desse lugar um dos mais heterodoxos estúdios de arte que existem.




Primeiro é preciso preparar o evento. Isso implica em limpar o atelier, organizar os instrumentos, tencionar a seda no bastidor, assumir uma postura de gratidão e humildade, preparar dezenas de cores e abrir as janelas. O espetáculo começa …com a entrada dos espíritos. Sim, os espíritos das borboletas que doaram suas asas para que a seda se faça. Eu não os vejo nem os ouço. Apenas os sinto pairando sobre a bancada colorida. Eu aguardo que façam suas escolhas, não imagino que critérios utilizam… até que finalmente elegem uma cor. Eu a levo até a seda que a bebe ávidamente em segundos. Apenas uma cor de cada vez. As vezes se repetem, as vezes pedem uma que não há, então preparo novas amostras até acertar o que eles querem. E nisso passamos horas sem que eu sinta cansaço, dor, dúvida ou angústia. Nesse estado eu nem lembro de quem sou.
Mas tem dias, que eu não sei o que me dá, de preparar poucas cores, não abrir as janelas e de pensar só em mim. Pensar em mim, é agir com vaidade, com prepotência. É não deixar o tempo fazer o que ele tem pra fazer. É ficar apegada as urgências e desprezar o importante. É negar os processos e só ansiar por resultados. Nesses dias, meu amigo, é que eu me atrapalho. Termino o dia exaurida e frustrada. Por mais que eu olhe e peça para os amigos olharem, não consigo identificar que espécie de borboletas passaram por lá, sequer, se passaram.