O que é que chamarei de meu se o coração já não faz lar em meu peito? Tenho esta casa que é minha. E dentro da casa tenho as coisas que juntei ao longo da vida. Mas, com que coração amá-las – as coisas, a casa, a vida – se o próprio peito me é estrangeiro? Quem não ama, nada tem. Quem não nasce de um sopro apaixonado, nasce sem.
Já faz tanto tempo e eu olho o dia nublado pela janela. Onde os pássaros se escondem em dias assim? Em que ninhos se calam os corações? Os olhos procuram, mas lá fora só há o branco intenso do céu. Meus olhos ardem. Sempre soube: muita luz, cega. Com que olhos procurarei pelo pulso que não sinto? Não ouço o pio. Nem aos pios.
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Já posso dizer que me sinto como forasteiro de meu próprio corpo. E toda a brisa que me toca em direção ao leste me arranca um pouco. Como se houvesse vendaval, eu não tenho onde me segurar. Tento me dar a mão. Eu não me alcanço.
Sou o cara mais estranho que conheci. Falo ao eu em terceira pessoa porque me sou estranho. Eu soo estranho em tudo o que digo. Tudo o que escrevo. Não sou diferente das pessoas, mas delas sou avesso. Nunca a mim me acostumei, nunca fui para mim o café com leite das manhãs, nem o caminho de casa, nem o rosto no espelho. Meu lugar é na janela pela qual me vejo passar apressado. E pela rua andando me olho a me olhar da janela, esse vizinho com o qual nunca falei, mas que afirmo conhecer bem.
E no enquanto o céu branco de tanta luz que nos cegou, que nos enfiou nessa escuridão.
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Perdi o Amor, mas Ele me encontra.
Perdi-me, e a casa, e as coisas, e o corpo.
Sem nada, vendi minh’alma.
Consegui em troca um pedaço de pão dormido.
Eu durmo.
Eu sonho que encontro com Ele, esse Amor.

